Os 70 mil fãs de Roger Waters que chegavam para ocupar a pista e as arquibancadas no estádio do Morumbi, no finalzinho da tarde do último domingo, não escondiam um sorriso quando cruzavam os portões de acesso ao show: como prometido, ali estava um palco imenso, atravessando o gramado de ponta a ponta, e que revelava as pretensões megalomaníacas do espetáculo que estava por vir. Erguida sobre uma estrutura de 55 toneladas - com 137 metros de largura por 11 de altura - a imponente ''muralha'' cenográfica, cartão-postal da turnê ''The Wall'', já era surpreendente mesmo com as luzes ainda apagadas.
A enorme expectativa do público paulistano foi atendida logo no abrir das cortinas. Começando às 20h com fogos de artíficio e com a melodia marcante das guitarras, os primeiros segundos de ''In the Flesh?'' já arrancavam lágrimas de marmanjos de diversas gerações: não era incomum ver pais e filhos se abraçando, emocionados. Seguindo o repertório do clássico disco duplo, lançado em 1979, as músicas começaram 'coladas' umas às outras, quase sem intervalos, e deram início a uma magnífica jornada visual, musical e lírica.
Nos primeiros 20 minutos, já foi apresentada a tríade mais esperada de todo o show: a sequência ''Another Brick in the Wall (Part 1)'', ''The Happiest Days of Our Lives'' e ''Another Brick in the Wall (Part 2)''. O público permaneceu boquiaberto, quase em silêncio, hipnotizado pela combinação das músicas com cenas quase surreais. ''The Wall'' não é um show de rock para bater cabeças; é um espetáculo temático, que aborda reflexões sobre o amor, a loucura e a solidão.
Além da parede 'mutante' - usada como uma imensa tela para projetores de altíssima definição - o leque de efeitos especiais que fazem parte da ópera-rock é imenso: um javali inflável de 10 metros faz rasantes sobre a plateia; marionetes gigantes aterrorizam criancinhas (convidadas especiais da favela de Heliópolis); um exército marcha com bandeiras; um avião cai e explode no palco; o ambiente é preenchido com modernos efeitos sonoros quadrofônicos de helicópteros. Tudo guiado pelas belas composições do Pink Floyd.
Waters não fica em cima do muro. Ele é, ao mesmo tempo, poeta e personagem. Mesmo com toda a pirotecnia, ''The Wall'' consegue ser um espetáculo surpreendentemente intimista, com composições que transpassam por aspectos autobiográficos: em especial, a morte do seu pai na guerra e as sequelas em sua infância. ''Quando escrevi essas canções, 35 anos atrás, acreditava que elas eram sobre o meu relacionamento com meu pai'', revelou o músico, em um dos raros momentos de 'pausa' para conversar com o público. ''Agora, percebo que elas são muito mais que isso. A parede é de todos'', afirmou o compositor, emocionado com os aplausos. Assumindo o papel de personagem e de maestro dentro de sua própria sinfonia, Roger Waters provou que, no auge de seus 68 anos, ainda consegue segurar um espetáculo dessa magnitude.

Mensagem
Em alguns momentos marcantes, são refletidas homenagens às vítimas da intolerância entre os homens - na turnê pelo Brasil, Waters dedicou um espaço especial para Jean Charles de Menezes, brasileiro morto por engano pela polícia britânica em 2005. ''Eu dedico este show a todos aqueles que foram vítimas da violência do Estado ou do terrorismo'', discursou o músico, aplaudido efusivamente. ''Não vamos esquecê-los'' é a mensagem que aparece, por diversas vezes durante o show, 'rabiscada' na muralha/telão.
Não é segredo que Roger Waters prefere apresentar o enredo de ''The Wall'' em teatros, ao invés de fazer shows para lotar estádios (a apresentação da noite de hoje, no Morumbi, vai ser completamente 'sentada', com cadeiras espalhadas em todo gramado). Isso porque o próprio compositor considera que seu trabalho extrapola as fronteiras da música; é preciso sentir o peso da narrativa para realmente entender e refletir sobre o rico significado de sua metáfora.
Sem nunca perder a força do repertório - que não é prejudicado nem mesmo pelos 20 minutos de intervalo no meio do show - a mensagem criada pela epopeia musical de Waters é fortíssima, e ultrapassa o âmbito político da obra: o medo constrói paredes, e o amor é a única ponte que existe entre os indivíduos. Talvez, um dia, vamos aprender a vislumbrar, através dos olhos de outra pessoa, a nossa própria humanidade.
No final, a imensa muralha desmorona, com um estrondo ensurdecedor. Entre lágrimas de extâse, a plateia, enlouquecida, ovaciona o compositor com um hino improvisado: ''Olê, Olê, Olê, Roger...Roger...''. Waters cruza os braços sob o próprio peito, agradecendo o carinho. Ele sai do palco em uma noite que, provavelmente, fará parte de sua última turnê mundial. As luzes se apagam. Nós não vamos esquecê-lo.

Serviço:
Os ingressos para o show de hoje às 21h no Morumbi estão disponíveis no site www.ticketsforfun.com.br. Os preços variam de R$ 180 a R$ 600.

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