Wilson BuenoDO JARDIM ZOOLÓGICO
Os chuvosos
Estes animais, eu vos convido, era uma vez.
Gordo e atarracado, todo cinza, o chuvoso mora dentro daquelas nuvens, bojudas e carregadas, nascidas para virarem chuva mal as rompa o elétrico serrote de um raio.
Estão sempre se procurando, uns aos outros, os chuvosos, dentro das nuvens que anunciam iminente mau tempo. Vivem em pequenos núcleos chamados família.
O pai chuvoso é gordote e calvo; a mãe, dona chuvosa, anda pelo interior da nuvem batendo seus tamancões e carregando à frente de si - para que lhe ilumine o caminho - um pires com uma vela espetada no meio. Seguem a chuvosa mãe quase sempre quinze chuvinhas, nunca menos que isso, havendo relatos de casais de chuvosos com até cinquenta filhotes-chuvinhas.
Moram, como já disse, dentro da nuvem que daqui a pouco despejará sobre nosso telhado humilde, as suas finas agulhas, o seu chuvaréu, sua chuvagem e chuvação.
O maior problema no interior das nuvens onde vivem os chuvosos são os raios e as trovoadas - os primeiros, pelo que lhes apaga as velas fazendo-os perder os chuvinhas de vista e as segundas, as trovoadas, pelo que, irrompendo sem que ninguém espere, e demorando-se no céu igual que cordilheiras implodidas no coração do vento, esmagam o chuvoso, dona chuvosa e todos os chuvinhas, os quais, mais achatados que uma pizza, pastéis esborracham-se no assoalho, ovos estralados.
Os chuvosos têm muita raiva dos raios e dos trovões.
O mais lindo nesta história, porém, é o dia em que os chuvosos sobre a Terra caem - múltiplos, gasosos, incessantes, transformados na névoa que deste lado se vê e que, feito um encanto, coroa os postes das madrugadas bêbadas de neblina e vai pelas frestas das janelas e sobe à copa do velho pinheiro e ali fica, halo gentil que a noite abriga, até que o primeiro sol da manhã a dissolva numa festa de luz e passarinho.
Os anagiraldes
O poeta Cesar Vallejo relata o nascimento, no porão de sua casa, em Lima, no distante ano de 1919, de uma ninhada de anagiraldes - insetos graúdos, do tamanho de um dedo da mão, túmidos, peludos e nauseantemente asquerosos.
O notável nestes vermes roliços e de pegajosa textura é que, superada a barreira das coisas ditas nojentas - e este é um obstáculo difícil de ser vencido - os anagiraldes pode que se mostrem invertebrados cândidos.
Vallejo chega a lhes dedicar um dos poemas sublimes de ‘‘Trilce’’, recusando deter-se no que eles, os anagiraldes, têm de mais assombroso - o aspecto de lesmas fétidas, enroladas umas às outras, no ninho, à maneira de minhocas putrefatas e cantando-os, já, o poeta, no que - vencido o nojo - engastam em pérola, baixo higiene de uma orquídea viva, para não citar outros limpos exemplos.
Só não nos dá o segredo e nem nos detalha com que minúcia foi possível atravessar o horror e o asco, além, claro, do incontornável vômito, para dar num poema que louva a manhã, o rubi, lêmures e gatos de pelúcia.
Os cordes
Como que existem na vida miúda - andando ao pé das casas cheias de visitas, misturando-se às conversas e aos conluios amorosos, estão onde haja a concórdia e o gozo, os duros trabalhos humanos, um pedaço de pão, o suor da testa; estão onde persita este estranho caminho em direção à Beleza, do desejo de, cada vez, mais e mais Beleza; ali neste lugar em que o homem, atento aos seus semelhantes, procrie e incense, hine e dance.
Os cordes exibem - e triunfam - pelos salões, uma cor verde já de todo gasta como símbolo da esperança.
Sendo de diversos tamanhos, não percebem que, no atropelo de servir, trombam uns contra os outros, e transbordam.
Cordes são bichos simples inteiramente dedicados ao espinhoso ofício de amar neste nosso mundo beligerante.
Há cordes, mais delicados, que ante o frustro intento, choram e matam-se de amor pelos seus contemporâneos.

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