Desistir de alguma tarefa que começamos ou cujo desafio aceitamos, sempre pareceu significar um fracasso diante das circuntâncias impostas. Deixar de comparecer a um encontro programado, de apresentar aquilo que era esperado, enfim, não corresponder às expectativas depositadas naquilo que estava previsto, não deixa de ser perturbador. Diz-se que a ‘‘gestalt’’ não se fechou.
Em um texto de Marlise Meyer sobre a Festa dos Congos, que acontece em algumas cidades do Brasil, a autora observa que este evento, que existe para homenagear os mais pobres e mais humildes - no nosso caso, os negros que tinham direito a entrar em procissão na igreja católica em um dia no ano, na época do Império - não envolvia representantes com esta característica em meio aos festejos, concluindo que sua presença se dava justamente pela ausência que se tornava tão nítida e discriminatória, ainda que a festa fizesse referências diretas e explícitas ao povo originário do Congo no Brasil. O ritual, enfim, se transformava em uma celebração do vazio.
Em um texto sobre o artista Ricardo Basbaum, Maria Medeiros nos faz ver que o uso de certa característica mimética e distanciada como estratégia de desenvolvimento de questões envolvendo o corpo, causa uma resignificação do espaço, já que não há um enfrentamento direto com a situação, como era de se esperar, mas uma relação de ausência. Um exemplo é o da portaria de um edifício que o artista reproduziu ao lado da verdadeira portaria, embaralhando a idéia de real e virtual. Outro exemplo é um ambiente criado com sofás para as pessoas se sentarem, sem saberem que estão sendo filmadas enquanto isso. Quando elas passam pelo monitor de TV, vêem, surpresas, suas próprias imagens.
Quem acompanha a programação televisiva deve ter visto o rapper X desistir do ‘‘Casa dos Artistas 2’’, alegando que não seria um bom exemplo para os ‘‘manos’’ continuar lá, exposto 24 horas por dia como produto. Foi estranho, mas neste último final de semana, no evento ‘‘açucar invertido’’ que acontece no Rio de Janeiro, na galeria da Funarte, também era para acontecer uma performance entre o artista Edson Barrus e a artista Graziela Kunst, de São Paulo, que não compareceu, mandando no lugar uma carta, que foi lida pelo performer Alex Hamburguer, falando do des-encontro. Quanto mais o texto se desenrolava, esclarecendo a impossibilidade de sua presença ao encontro, mais esta ausência se materializava.
Essa questão da materialidade e da imaterialidade, da ausência e da presença, aliás, estão em pauta na discussão e no pensamento dos artistas desde, ao menos, John Cage, incorporando à música o silêncio e os ruídos, e Yves Klein. Em 1961, Klein escreveu o Manifesto do Hotel Chelsea, falando sobre a imaterialidade e o vazio, em discurso que propunha a espiritualidade e a levitação no espaço como estratégias de linguagem, agora não mais como algo inexorável, mas como recurso artístico.
O fato é que, mais do que nunca, muito do que se tem produzido de interessante em arte já não depende mais da mão do artista, ou de sua interferência direta na obra e ele acaba sendo muito mais um agenciador de processos artísticos, do que propriamente um ‘‘criador’’. Pode parecer um sacrilégio para nossa cultura voltada para a valorização das coisas feitas, mas sem dúvida, como apregoava Yves Klein, é preciso se desapegar da ‘‘feitura’’ da obra se quisermos consquistar a dimensão da sensibilidade na arte.

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