Do iê-iê-iê à música antiga - Zeca Corrêa Leite
A geração da Jovem Guarda sintonizou não somente o som irreverente da música da juventude, como no final dos 60 e começo dos 70 também se deixou levar por outro som, que era o oposto do movimento que vinha de roldão. Greenleaves, a faixa de abertura do disco do grupo Musikantiga ganhou as paradas de sucesso e criou nova moda - a da flauta doce. O jovem que tocava o instrumento no conjunto é Ricardo Kanji, o brasileiro que integra a Orquestra do Século XVIII desde sua fundação.
O reconhecimento internacional à importância de Kanji pode ser avaliado pelo fato dele ter sucedido seu professor, Frans Bruggen, no Conservatório Real de Haia. Logo depois Bruggen viria a criar a melhor orquestra de música antiga do mundo. Ele se cansou do repertório de flauta doce e quis fazer um conjunto de câmara. Formou essa orquestra com a elite que já conhecia, explica Kanji.
Exatamente isso, uma elite. O pessoal que toca na Século XVIII não é típico de orquestras. São solistas e cameristas que se encontram três, quatro vezes ao ano em Amsterdã, ensaiam perto de uma semana e saem para as turnês, continua o flautista. Como não há rotina, também não há desgaste da convivência. Temos vontade de tocar e gostamos muito da inspiração do Frans.
O resultado é audível, comenta o músico sobre a Século XVIII, com enorme modéstia. O conjunto tem mais de 70 discos envolvendo desde sinfonias de Haydn e Mozart, passando pelas suítes de Rameau e a série completa das sinfonias de Beethoven. No momento estão terminando a série de Schubert.
Voltando aos anos 60: quando o conjunto Musikantiga saiu à luta e transformou-se em sucesso, não foi por mero acaso. Seus jovens integrantes sabiam o que queriam da vida, e que papel tinha o grupo naquele momento. Nossa proposta era desmistificar os concertos arrogantes, de gala, com pessoas sonolentas na platéia, explica Ricardo Kanji. Queríamos tocar para jovens.
A ousadia era tanta que fizeram exatamente aquilo que pretendiam. Foram ao encontro da mocidade, aceitando convites de programas de rádio e programas populares na televisão. Impulsionados pelo maestro Rogério Duprat, entusiasta permanente da aproximação do erudito e popular, os músicos apresentaram-se ao lado de cartazes como Elis Regina, Nara Leão, Caetano Veloso. Foi assim que Greenleaves chegou aos ouvidos da garotada e ditou moda.
Desde 1980, quando da criação da Século XVIII, Ricardo Kanji trocou o Brasil pelo mundo. Viajou muito durante 15 anos. Quando voltou ao Brasil, em 1995, deparou com a falta da memória nacional. Não tínhamos a história da música do Brasil organizada e concisa, as informações eram esparsas, conta.
Em 1997 começou a trabalhar no projeto História da Música Brasileira, um levantamento que abrange a vida musical nacional a partir do século 16 até a década de 30. O investimento, que foi possibilitado através da Lei Rouanet e com patrocínio da Telebras, resultou em 15 vídeos e seis CDs.
Os vídeos estão sendo levados ao ar pela TV Cultura de São Paulo (com exibição local no Paraná pela TV Educativa - PR), nas noites de sábado, às 19h30. Inclusive, o episódio de hoje enfocará a trajetória de Carlos Gomes, um dos maiores compositores eruditos brasileiros.
Para levar adiante aquilo que vinha sendo pesquisado, Kanji formou a Vox Brasiliensis, orquestra e coro especializada em interpretar canções das mais variadas épocas. Não é uma tarefa simples. A música colonial requer profundo conhecimento do estilo - ignorá-lo faz com que todo o trabalho perca totalmente o sentido. Seria como uma leitura de Jorge Amado com dicção de alemão, compara o músico.
A música feita no Brasil copiava o estilo clássico europeu, principalmente a partir do século 18, pelas mais variadas razões, fossem elas de etnia como pelas informações que provinham dos grandes centros. Quanto aos compositores, cada qual tinha a sua maneira de se expressar artisticamente. A genialidade deles era maior que a localidade onde estavam, define o flautista.
Enquanto na Europa um compositor podia escrever pensando em grande orquestra, aqui a realidade era completamente diversa. Temos riquíssima produção, mas muita coisa está para ser descoberta, enquanto outras estão apodrecendo nos arquivos, lamenta Kanji. Ele acredita que se conhece apenas uns 20% do acervo musical.
A empreitada em busca de nossa história trouxe pepitas valiosas, descobertas em Ouro Preto, São João Del Rey, Diamantina, Salvador, Mogi das Cruzes, Rio de Janeiro, São Paulo. Fiquei contente de ver toda qualidade delas, afirma o músico.
Os dois discos que saíram até agora foram pelo selo Eldorado. É possível encontrá-los nas boas lojas. Para saber dos quatro séculos da história, basta sintonizar a TV Educativa, aos sábados, às 19h30. O programa tem meia hora de duração.





