"Tantos o preto velho já curou e a mãe preta amamentou. Tem alma negra o povo." A força desses e outros versos de Luiz Carlos da Vila (1949-2008), um dos maiores poetas do samba, abre hoje os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, espetáculo à parte para quem vai curtir o Carnaval no sofá. Das 12 agremiações do Grupo Especial, é possível arriscar dizer que pelo menos quatro candidatas ao título se apresentam nesta noite e madrugada afora, embora a escrita do carnaval carioca reze que as campeãs são as que desfilam na segunda-feira.
Coautor de clássicos como "O show tem que continuar", "Kizomba, a festa da raça" e "Além da razão", entre tantos outros, mestre Luiz Carlos da Vila é a inspiração da Unidos do Viradouro para exaltar na Marquês de Sapucaí os legados da raça negra. A escola de Niterói será a primeira a se apresentar, por volta das 21h30. Para contar o enredo "Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça", a agremiação juntou dois sambas de Luiz Carlos, "Nas veias do Brasil" e "Por um dia de graça." O samba-enredo, que também uniu as duas letras, provocou polêmica por não se tratar de uma obra inédita, mas é, disparado, o mais bonito do ano.
Passada a Viradouro, vêm as mulheres da Mangueira. A Estação Primeira, tão grande, tão carente de um título que não vem há 13 anos, espera acabar com a sina enaltecendo a mulher brasileira. "Agora chegou a vez vou cantar: mulher brasileira, mulher de Mangueira em primeiro lugar" é um tema também inspirado numa música, "Mulher Brasileira", de Benito di Paula. Além de baluartes que fizeram história na Verde e Rosa, como dona Zica, segunda esposa de Cartola, e dona Neuma, a escola também promete homenagear várias personalidades femininas. O samba pode ajudar. Não é primoroso, mas o melhor que a Mangueira leva para a avenida desde 2011, quando o enredo foi sobre o menestrel Nelson Cavaquinho.
Terceira escola a se apresentar nesta noite, a Mocidade Independente de Padre Miguel traz como principal trunfo o carnavalesco Paulo Barros, tricampeão pela Unidos da Tijuca nos últimos cinco carnavais (2010, 2012 e 2014). Contratado a peso de ouro, desenvolveu um enredo propício para mexer com a imaginação do público e "causar" na Sapucaí, o que ele sabe fazer muito bem: "Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se te restasse um dia?" A ideia é tratar o tema com muito bom humor. A chegada de Paulo Barros representa um momento em que a Mocidade tenta voltar ao bloco das grandes escolas do Rio, status que ela perdeu desde a morte de seu patrono, o bicheiro Castor de Andrade, no fim dos anos 90. A verde e branca da zona oeste não ganha um título desde 1996.
Na regência do samba, a Unidos de Vila Isabel entra em cena para apresentar uma grande sinfonia. O enredo "O maestro brasileiro está na terra de Noel, a partitura é azul e branco, da nossa Vila Isabel", sobre o maestro Isaac Karabtchevsky, tem a pretensão de unir gêneros aparentemente distintos – música erudita e samba – para reverenciar a tradição da Vila, bairro de Noel Rosa famoso pelas calçadas musicais. É uma tentativa também de resgatar a autoestima da escola de Martinho da Vila, que após o título incontestável em 2013, com um belíssimo samba assinado pelo grande sambista sobre a vida no campo, fez feio ano passado, quase sendo rebaixada para o Grupo de Acesso.
A quinta a entrar na avenida, a Acadêmicos do Salgueiro, vem com um grande desfalque. Pela primeira vez em 12 anos, o folclórico intérprete Quinho, um dos ícones do carnaval carioca, o cara que fez da irreverência e dos bordões sua marca registrada, não será a voz oficial da escola. Ele teve uma divergência com a presidente reeleita da agremiação, contra quem chegou a disputar uma eleição acirrada ano passado, e não vai "arrepiar" na Sapucaí. Uma pena. O Salgueiro apostou num enredo patrocinado para falar das delícias da culinária mineira, "Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí", outra pena. A escola tem feito grandes desfiles autorais nos últimos anos. O do ano passado, sobre a ameaça de destruição do planeta Terra pelo homem, lhe rendeu o vice-campeonato e um ótimo samba, o melhor de 2014.
Fechando o primeiro dia de desfiles, a midiática Acadêmicos do Grande Rio, que os detratores chamam de "Unidos do Projac", tamanho o rol de estrelas globais que desfilam pela escola, pode não ter o melhor enredo, mas tem o melhor título: "A Grande Rio é do baralho", sobre a história do carteado. Caçula das escolas da elite, a tricolor de Duque de Caxias tem como "zap" os desfiles corretos que faz. As cartas estão na mesa. Truco!

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