Guiados pela própria voz do cineasta, os admiradores da obra de Pedro Almodóvar aprenderam a ler seus filmes como um mergulho incendiário nas águas turbulentas do desejo – não por acaso a produtora criada por ele e seu irmão Agustin é El Deseo. O olhar sobre sua obra tende a se concentrar nos anseios deslumbrantes e nas paixões desencadeadas que sempre aprisionaram e impulsionaram seus personagens. Uma tendência a centrar-se na ideia do vendaval emocional que veio a ofuscar em certa medida o outro pilar da filmografia do autor espanhol: a busca da verdade, tanto na dimensão pessoal como na social, e até mesmo no aspecto histórico. Uma sede de verdade que se estabelece como motor deste “Madres Paralelas”', seu melodrama mais recente.

Enfocando a maternidade, Almodóvar  utiliza várias gerações de matriarcas para abordar a crueldade do regime fascista espanhol
Enfocando a maternidade, Almodóvar utiliza várias gerações de matriarcas para abordar a crueldade do regime fascista espanhol | Foto: Divulgação

Os filmes de Pedro Almodóvar há muito se concentram em indivíduos marginalizados – os desprivilegiados, os abusados, os negligenciados. No entanto, essas histórias ficam longe de tragédias melancólicas. Injetando um senso único de humor espanhol (e as cores primárias – vermelho, azul e amarelo), Almodóvar dá poder a seus protagonistas, permitindo que eles se afirmem em um mundo que continuamente tenta marginalizá-los. Com “Mães Paralelas”, seu 22º longa-metragem, o cineasta de 72 anos continua defendendo os oprimidos – desta vez, as vítimas das atrocidades nacionais espanholas. Embora o filme contenha indícios da propensão de Almodóvar para a comédia rápida e paletas de cores coesas, ele traduz o sentimento sombrio da amnésia cultural da Espanha, culminando em um clímax emocional inesperadamente devastador.

E para surpresa do espectador, a trama sobre gravidez e maternidade do filme se transforma em critica politica aguçada.

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“Mães Paralelas” centra-se na história de duas mães solteiras, Janis e Ana (extraordinárias Penélope Cruz e Milena Smit), que devem superar uma série de percalços pessoais em que a doença de suas filhas terá um peso crucial: uma "desadaptação extrauterina" e “imaturidade cerebral”. Embora o filme se apresente como um exame direto dos perigos peculiares da maternidade – particularmente para mulheres que criam filhos fora dos limites das famílias nucleares heterossexuais /convencionais –, em vez disso Almodóvar, utiliza várias gerações de matriarcas para trazer luz às famílias irreparavelmente esfaceladas pela crueldade do regime fascista não tão distante da Espanha. A razão inicial pela qual Janis se aproxima de Arturo é perguntar se ele poderia usar suas conexões para organizar uma escavação de uma grande vala comum em sua cidade natal – um dos corpos enterrados é o de seu bisavô.

(Ele é apenas um dos cerca de 114.226 cidadãos que foram vítimas da violenta perseguição anticomunista da Guerra Civil Espanhola, uma revolta fascista que acabou levando à ditadura de quase 40 anos de Francisco Franco, de 1936 até sua morte em 1975.)

Para um diretor que nunca se esquivou de retratar os tabus mais controversos da sociedade na tela – incesto, estupro, tentativas de suicídio, pedofilia – o fato de ter levado toda uma carreira de 22 filmes para incorporar explicitamente os efeitos da Guerra Civil Espanhola em seu trabalho demonstra a incapacidade do país de lidar com o tema. Embora Almodóvar tenha afirmado que nenhum de seus familiares foi vítima da brutalidade fascista, sua dedicação à situação das famílias daqueles que morreram infunde no filme uma sensação quase incomum de leveza e tristeza. Embora isso seja certamente uma mudança na sensibilidade melodramática do cineasta (significativamente desde seu semiautobiográfico “Dor e Glória” de 2019, este enfoque nunca parece invasivo ou gratuito, sempre permanecendo sensível mesmo ao incorporar reviravoltas e revelações chocantes).

Muito em razão do desempenho arrasador de Penélope Cruz, como a mulher cuja vida suporta o legado deixado pelo trauma do passado não resolvido de sua família, “Mães Paralelas” é um exemplo profundamente político do que se perde quando esquecemos – e o que é alcançado quando lutamos para lembrar.

Penélope Cuz interpreta uma mulher que suporta o legado deixado pelo trauma do passado não resolvido de sua família num filme de conteúdo político
Penélope Cuz interpreta uma mulher que suporta o legado deixado pelo trauma do passado não resolvido de sua família num filme de conteúdo político | Foto: Divulgação

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