Cidadania é um conceito amplo e pode ser compreendido, de modo contemporâneo, como um conjunto de direitos e deveres exercidos por um indivíduo que vive em sociedade. Os movimentos sociais contribuíram para que essa concepção se renovasse dia após dia - na busca de garantias e bem-estar econômico e político, além de de lazer e educação. Ou seja, a cidadania está em permanente construção e, embora não esteja disposta em prateleiras e nem seja uma disciplina com começo meio e fim, é uma prática presente nas escolas em diferentes atividades educativas.

Trabalho de conscientização reduz o desperdício nas refeições no CMEI Padre José Luis Nieto, em Cambé
Trabalho de conscientização reduz o desperdício nas refeições no CMEI Padre José Luis Nieto, em Cambé | Foto: Gina Mardones - Grupo Folha

De acordo com o coordenador pedagógico do Centro Municipal de Educação Infantil Valéria Veronesi, Valdir de Oliveira, nas próprias brincadeiras, a cidadania flui. "Nos jogos de mesa, nas rodas de conversa, nos desafios e no direito de voz e de expressão". Com 430 alunos de 0 a 5 anos, criatividade não falta para colocar em prática ações presentes no cotidiano, dentro do ambiente escolar. "Podemos transformar um bambolê em um volante e reforçar as regras de trânsito. Com embalagens vazias, reproduzimos as cores do semáforo e a importância de atenção quando está verde, amarelo ou vermelho o indicar do trânsito", explica.

Valdir de Oliveira, coordenador do CMEI Valéria Veronesi, em Londrina: direito de voz e expressão
Valdir de Oliveira, coordenador do CMEI Valéria Veronesi, em Londrina: direito de voz e expressão | Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha

Oliveira reforça que a cidadania não é imposta de modo sistematizado, como simples regra a ser passada adiante. "As próprias brincadeiras acabam incorporando os códigos sociais. Um exemplo são as saídas da escola, feitas até mesmo a pé e que permitem que os alunos observem a paisagem, como a cidade é organizada, a faixa de pedestre, o passeio e que devem estar juntos e com atenção. Sem que precisem estar entre cordas ou em filas que dificultem a visualização, sabem se comportar e aproveitar. Nosso objetivo é que sejam inseridas e conquistem a autonomia dentro de seu contexto de criança", diz.

Carla Dante, diretora do CMEI Padre José Luis Nieto, no jardim Santo Amaro, em Cambé., também confirma que embora a Cidadania não seja trabalhada de modo rotulado, ela é aplicada em todas as atividades, durante todos os conteúdos que permeiam o currículo da Educação Infantil dos 145 alunos da unidade. "Estamos formando as crianças para a cidadania, para o respeito mútuo, para se colocar no lugar do outro e para entender como se sentiria em determinadas situações, desde pequenininho."

O muro do CMEI Padre José Luis Nieto,  que antes apenas separava a rua da escola, é agora um espaço para arte e conservação
O muro do CMEI Padre José Luis Nieto, que antes apenas separava a rua da escola, é agora um espaço para arte e conservação | Foto: Divulgação

Um exemplo de atividade prática, de acordo com Dante, foi a pintura do muro da escola. "Além do conhecimento adquirido sobre arte e a reprodução realizada, o trabalho vai além do aspecto cultural, pois leva em conta o valor do patrimônio para toda a sociedade. O sentimento de pertença toca o aluno e toda a comunidade que observa e entende que aquele espaço que está ganhando cuidado, é dela também." A pintura no muro exigiu uma semana de dedicação - de alunos e professores. Agora renovado, graças a muitas mãos e variadas técnicas, a obra que delimita espaços é também referência e orgulho. "Gerou mais bem estar para a comunidade e as crianças se encantam ao apontar à famílias e o que fizeram com as próprias mãos".

Uma outra atividade que coloca em evidência o desenvolvimento dos educandos é em relação à alimentação. "Notamos que havia desperdício na hora da refeição. Eram em média de cinco a seis quilos por refeição e hoje são gramas", comemora a diretora. "Desenvolvemos todo um trabalho de conscientização - de onde vem esse alimento, o caminho que ele percorre, o consumo de água para sua produção e tudo o que é gasto para que chegue até o prato", enumera.

O prato sem sobra é comemorado na escola e em casa. "Sim. As crianças mudaram o comportamento em casa e esse foi um salto grandioso. Devemos isso também à manutenção de nossa horta suspensa, que dá a eles o entendimento de que não é necessário um grande espaço para se alimentar bem e com variedades." Os rabanetes, a beterraba, a salsinha e a cebolinha fazem parte dos cuidados dos alunos do CMEI Padé José Luis Nieto.

A assessora pedagógica da Educação Infantil do município de Cambé, Edna Costa Serezuella, ratifica que embora não exista um projeto específico para abordar o conceito de Cidadania na Educação Infantil, várias ações são realizadas com esse tema. "O trabalho realizado para ressaltar a cidadania é abordado ao trabalharmos os conteúdos das diferentes áreas do conhecimento. De modo humanizado, aprimoramos saberes, regras de convivência, higiene, respeito corporal, ao outro, assim como o cuidado com seus bens e do outro. Ao conscientizar sobre os cuidados no trânsito, alimentação saudável, meio ambiente, diversidade, a questão da cidadania é ressaltada e os resultados são muito satisfatórios", afirma.

Escola e família em sintonia

com a formação de cidadãos

Maria Gabriela Nunes e Soraya Cristina Betio Marcelino são assistentes administrativas. Além da profissão em comum, os filhos são prioridade para as moradoras de Cambé. A primeira das mães tem dois filhos, Samuel, 5, matriculado no CMEI Daisaku Ikeda; e Ana Luiza, 3, que estuda no CMEI Maria Magdalena Carvalho Correa. Nos dias atuais, há vários aspectos da educação dos filhos que chamam a atenção de Nunes - a alimentação e a comunicação, são exemplos.

"A interação com outras crianças e a mediação dos educadores têm contribuído muito para a formação dele. O Samuel resistia em provar certos alimentos, estava uma verdadeira formiguinha, só queria doce e era o tipo de criança que não gostava de ouvir e também falava pouco. Agora, já come de modo mais variado e como está lendo, gosta de ler até para a irmãzinha", alegra-se. As atividades propostas pela escola são vistas pela família com bons olhos, pois promovem a integração e elevam a autoestima.

"Um exemplo foi a exposição de artes. Fomos à escola e eles se sentiram valorizados porque estávamos indo lá para ver o trabalho que fizeram. A escola é um lugar onde passam grande parte do tempo e as famílias devem fortalecer esse vínculo, assim como valorizar mais os professores, pois eles têm um papel muito importante na formação de nossos filhos, nossos bens mais preciosos. A formação é um processo e pais e educadores devem estar de mãos dadas e comprometidos no formação desse cidadão", reflete.

Soraya Marcelino também vê de forma positiva a educação do filho, Arthur, 3. "Percebo muitos avanços no desenvolvimento dele, principalmente em se relacionar." Além de aprender sobre formas, cores e números, ela nota que Arthur está convivendo melhor com mais pessoas e descobrindo suas habilidades. "Está desenvolvendo seu potencial e a rotina organizada da escola é complementada em casa", diz. No livro de pintura que levou para casa, dá sequência aos estímulos em sala e motiva-se diante do colorido criado por ele mesmo.

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