O nome de Beto Carminatti está associado à produção cinematográfica em Curitiba, assim como a cidade está associada ao frio. Dono de uma obra extensa e premiada, o moço decidiu mostrar que sua sensibilidade poética não se materializa somente nas imagens projetadas nas telas. Em novembro lança durante os festejos do Perhappiness, seu livro de poesia ‘‘Espelho Selvagem’’.
A obra divide-se em duas partes – ‘‘Espelho Selvagem’’ e ‘‘Mapa Imundi’’ –, como se fossem volumes diferentes, unidos por uma mesma capa. Imagens referenciais – punhais, taças, vestes, frutos, talismãs – espalham-se pelas páginas, em fotos produzidas por sua mulher Cristiane. Carminatti entende que assim como os animais adotam os homens como seus bichos de estimação, o mesmo aconteceu com ele em outra esfera.‘‘Eu sou bicho de estimação da poesia’’, define-se.
A seguir, leia trechos da entrevista que Beto Carminatti concedeu à Folha 2.
Que tipo de mergulho é esse no ‘‘Espelho Selvagem’’?
Mergulho de menino que mergulha no rio e sai no mar. É mais ou menos assim: ‘‘não penso, logo existo e faço’’.
Mais que uma confissão, ele seria uma vertigem?
Seria como uma vertigem de porre de vinho. Eu também estou procurando entender a minha poesia do ponto de vista do leitor, porque não faço a menor questão, nem tenho a menor intenção de tentar me fazer entender. Acredito que a poesia tem a capacidade de ser profética, tanto para a história coletiva, como para a história pessoal. Nesse sentido acho que bato uma bola intuitivamente com aquilo que o Leminski fala sobre o prazer do inútil. Eu colocaria a irresponsabilidade na mesma medida do fazer.
Quando você decidiu-se pela criação desta obra?
‘‘Espelho Selvagem’’ foi escrito entre 1975 e 77, quando eu tinha entre 17, 18 anos de idade. Agora vejo que o tempo passou sem muita diferença para o menino e para o homem. Já o tempo da poesia – não penso, logo existo – continua na minha vida com liberdade. Leio ‘‘Espelho Selvagem’’ e vejo nele todas as minhas caras de hoje, e possivelmente as caras de amanhã. É diferente do ‘‘Mapa Imundi’’, que é uma metralhadora, uma serra elétrica. Continuo encantado com as coisas do ‘‘Espelho Selvagem’’ e desencantado com as coisas do ‘mapa mundi’. Isso me fez criar o Mapa Imundi.
No seu ‘‘Espelho’’ você faz...
... um auto-retrato projetado. Não tenho instrumento nem quero ter para analisar o texto. Poderia até ser interessante se eu fosse outro poeta. Existem poetas críticos que criam com um rigor de estudioso e primam por determinados valores dentro do próprio lastro temporal. O Jorge Luiz Borges, por exemplo, trata dos temas poéticos fazendo uma poesia maravilhosa. Como o João Cabral de Melo Neto, que tem todo um rigor racional. A aridez do que ele escreve é a aridez do deserto brasileiro, que acabou batendo uma bola com o deserto possível da Espanha, onde viveu.
Quer dizer: cada qual carrega seu mundo, e o transforma em palavras. É isso?
Acredito que cada poeta, cada ser, apesar da semelhança da raça e da cultura tem a diferença que não é somente a do estilo – é aquilo que você tem como informação na sua formação. Por isso que falo do meu ‘‘DNA poético’’ estar concentrado no ‘‘Espelho Selvagem’’. Eu me vejo ali em todos os tempos da minha vida, até daquela que ainda vou viver.
O fazer poético reflete a herança cultural de quem escreve?
Não é assim: um camarada bateu a cabeça e desceu o espírito santo da poesia para ele fazer a criação. Acredito que tudo faz parte de um processo. Você pode ter influência de todos os santos, do Sílvio Santos, do spaghetti Todeschini, como do western spaghetti. Eu diria: eu não complico ou explico, sou sexo explícito. Escreveu não leu, o palco é meu.
O processo para você montar esta obra foi contínuo ou sofreu rupturas?
Localizaria este trabalho dentro de um ano, que poderia ter sido escrito em uma semana ou um mês. Honestamente não consigo localizar, e para não ficar brincando com essa temporalidade do ‘‘olha a precocidade do moço’’, dei uma elasticidade na minha memória para que o poema fique entre 1975 e 1977. Não foi antes nem depois. Sei porque parto de duas referências: a neve de 75 e eu trabalhando com a minha mãe num bar-restaurante que a gente tinha na Marechal Floriano, quase esquina com a Engenheiros Rebouças.
O espelho que você traz no peito junta cacos de imagens que formam uma história, ou ele não tem nenhuma rachadura?
Ele é um espelho que é o céu que reflete o mar. Com todas as suas movimentações e todas as influências da lua e dos outros planetas, e também da movimentação das pessoas.
Entre os poetas que o influenciaram está Borges?
Acho que Borges é uma espécie de Mozart da literatura, onde não falta nem sobra nada. Honestamente, acho que o que mais me influenciou foi ter plantado o trigo, feito vinho e andado a cavalo; ter vivido com minha avó, ter visto muito filme com Giuliano Gemma e comido muita pimenta. Esses foram os poetas que me influenciaram. Mas, na pós-adolescência, num contato maior com o mundo que te inspira – que é a poesia dos outros –, gosto imensamente de Sergio Leone, Fellini, Enio Morricone, Alain Resnais e outros loucos dos quais não me lembro.

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