Do barulho à verdadeira conversa
Acostumados a um mundo virtual nem conversamos direito, como se as relações só pudessem ser mediadas por uma tela
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 2026
Acostumados a um mundo virtual nem conversamos direito, como se as relações só pudessem ser mediadas por uma tela

Querem me irritar? Me coloquem num desses ambientes barulhentos, como bares e restaurantes, onde ninguém escuta ninguém e a gente só vê as bocas se mexendo sem que se entenda uma palavra.
Para mim não tem jeito.
Posso estar na melhor companhia, com amigos queridos, mas quando todo mundo conversa, sem que ninguém saiba direito o que o outro está falando - como aqueles cachorros que abrem a boca para comer moscas sem pegar nenhuma - dou um jeito de sair: "até mais, pessoal."
Ficar num ambiente barulhento, em que a música alta se mistura com as conversas, sem ninguém respeitar sequer o artista no palco, me irrita profundamente. Imagino os artistas, obrigados a fazer o show para um público que não está nem aí com eles.
Dia desses estive num ambiente assim. Um lugar até agradável, mas que ecoa o vozerio e reverbera o ruído entre quatro paredes, com muita gente fingindo que escuta o outro. Aí, a banda começou a tocar, a vocalista também não se entendia com o microfone, se atrapalhou com o barulho da plateia, desafinou a cada nota com a interferência das conversas e instalou-se o caos sonoro.
Saí à francesa ou nem tanto. Na rua é como se adentrasse um oásis, depois de atravessar o deserto das relações humanas.
Acostumados a uma vida virtual nem conversamos direito. Falo das conversas abrangentes, para abrandar um pouco a superficialidade rasteira de quem há muito tempo não fala olhando nos olhos do outro, mas balbucia mexendo no celular sem parar, como se só existisse vida mediada pela tela. E como os olhares falam ou, pelo menos falavam, quando haviam diálogos verdadeiros.
Hoje, num ambiente público, vejo situações bem distintas: as pessoas continuam ligadas ao celular mesmo com amigos à mesa. Ou tentam dialogar mas não se escutam, com o barulho ecoando nas paredes e as bocas se mexendo para pegar moscas.
Construímos um mundo esquisito. E quando chego em casa, depois de uma conversa anulada ou saturada por quem tenta se comunicar aos gritos, penso: "que alegria mergulhar nos pensamentos que o silêncio proporciona."
Isso me dá a sensação de intimidade como escrever essa crônica, ainda na cama, na manhã de quinta-feira, sem precisar competir com um mundo excessivamente barulhento, tendo a certeza de que serei lida ou "ouvida".
A escrita ainda nos salva.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


