Do alto da cachoeira, uma visão de tirar o fôlego
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de março de 2001
Célia Baroni De Londrina 
Atentos a cada passo, prosseguimos na caminhada, hora subindo, hora descendo, mas sempre acompanhando o rio. Nem com muito esforço dá para se manter ligado aos problemas do dia-a-dia. A caminhada exige esforço físico, atenção e prende o raciocínio na necessidade constante de ultrapassar obstáculos. O relaxamento fica para as pequenas paradas, momento oportuno para apreciar a paisagem.
Mas nada tinha nos preparado para a segunda cachoeira (Chicão 2). A sensação de harmonia e serenidade ficou presa na garganta e foi substituída pelo espanto e admiração. De repente, o rio sereno e raso se transformou em uma linda e poderosa queda livre de 56 metros de altura. Nada amortiza a queda vertical das águas que se transformam em fumaça, formando um arco-íris. No final, um leito de rio ainda mais raso e fraco de correnteza continua seu caminho.
Da plataforma rochosa, no limite da cachoeira, estão uma altura impressionante (equivale a um prédio de 12 andares) e a imensidão de uma mata aparentemente sem rastros dos efeitos ou defeitos humanos. O espetáculo é de tirar o fôlego. É você, Deus .... e o medo.
Assumo minha parte covarde, mas prefiro chamá-la de cautelosa. Não fiquei em pé a beira do precipício como os membros da equipe que nos acompanharam durante o passeio. Humildemente, ou humilhada, como preferirem, engatinhei até a beira da cachoeira. O coração apertou, a garganta ficou seca e minha mente ficou extasiada com a visão estonteante da queda livre das águas.
Pela primeira vez questionei se ia conseguir cumprir a minha parte do acordo: se seria capaz de fazer o rapel.
Demoramos cerca de uma hora para chegar a segunda cachoeira. Mais 40 minutos para preparar o equipamento para a descida e checar a segurança. E a coragem? Bom, ia ficar muito ruim para a nossa imagem pular fora naquele momento. Mas confesso que pensei seriamente nesta possibilidade. Parecia muito mais seguro manter os pés firmes no chão.
Pronto o equipamento e vestida a cadeira feita de amarras e preso a corda, a pessoa precisa chegar até a beirada da queda. De costas e com os joelhos dobrados, deve-se deixar o corpo descer lentamente até formar um ângulo de quase 90 graus com o paredão.
A técnica é fácil na teoria. Na prática, o controle da corda que vai estabelecer o ritmo da descida deixa os nervos a flor da pele. Mas a parte mais difícil é superar o medo do primeiro impulso que vai levar à descida. Depois é simplesmente maravilhoso.
A sensação de segurança é apenas o suficiente para permitir que se aproveite ao máximo a decida. Depois de arriscar tudo, fica fácil se entregar ao prazer de estar suspenso no ar. Vira-se um pouco criança dividido entre a diversão do balanço e malabarismos tímidos e os solavancos da descida. A adrenalina não pára em nenhum momento. Cada impulso de descida é um novo obstáculo. A escolha do melhor local para apoiar os pés, prende a atenção e cada trecho superado é uma vitória.
No final da descida estão o prazer de ter superado seus limites e a descoberta de que com determinação, inteligência e respeito tudo é possível. Ah, quase ia esquecendo! Depois é preciso subir por uma trilha também vertical que mais parece uma pista de rali e faz a descida parecer brincadeira de criança.


