Do alquimista ao burro químico: como o francês vê o Brasil
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quinta-feira, 19 de março de 1998
Gilles Lapouge Agência Estado 
Todos os anos, na primavera, o Salão do Livro de Paris é uma festa. E essa festa terá como tema, em 1998, o Brasil que, este ano, é o convidado de honra - sucedendo, assim, aos EUA que, no ano passado, ocuparam esse papel.
O desembarque da literatura brasileira na Porte de Versailles - vasto complexo reservado a grandes exposições, na periferia sul da capital francesa - não passa despercebido. Lendo os jornais, assistindo à televisão, fica-se com a impressão de que só o Brasil estará presente ali quando, na realidade, o Salão estará recebendo 1.200 editores vindos do mundo inteiro.
Os nomes dos escritores do Rio, de São Paulo, de Minas Gerais ou do Rio Grande do Sul surgem em todos os artigos. Enquanto durar a temporada, Francisco Alvim ou Adriano Espínola serão tão famosos quanto André Gide ou William Faulkner. Isso significa que a literatura brasileira é muito conhecida na França? Não é bem assim. Prova disso é que, em 1994, segundo informa o Syndicat National de lÉdition, as editoras francesas traduziram 1.816 livros estrangeiros e, desse total, apenas oito eram brasileiros.
Esse desconhecimento é intrigante. Anne-Marie Métaillé, editora de qualidade, especializada em literatura brasileira, tem sua explicação: Os brasileiros são vítimas da visão estereotipada que os franceses têm deles. Além disso, país continental que é, com várias literaturas diferentes, o Brasil é difícil de qualificar.
Uma outra opinião é a de Jean Sarzana, delegado-geral do Salão: Para muita gente, o Brasil ainda é apenas um país muito distante, povoado por selvagens.
Não sei quem é esse Jean Sarzana, mas ele me parece absurdo. Vamos admitir que, cem anos atrás, a rigor, os franceses ainda confundiam o Brasil com a floresta virgem. Mas, hoje, essas bobagens não têm mais razão de ser. Os franceses já sabem que o Brasil é um dos maiores países do mundo e um dos mais poderosos, com uma cultura rica, multifacetada, brilhante e refinada. É claro que ainda há alguns franceses convencidos de que brasileiro fala espanhol. Mas felizmente já existe um grande número que começa a suspeitar que o Brasil não produz apenas favelas, Carnaval, futebol e tanguinhas fio-dental.
Em compensação, é verdade que a literatura brasileira não é traduzida na França com a frequência que mereceria. Proponho uma explicação para isso: há 20 anos, mais ou menos, soou a hora do romance latino-americano. O pessoal finalmente entendeu que se, no final do século 19, tinha dominado a literatura russa, na Belle Époque, a francesa e inglesa, no entre-guerras, a americana, naquele momento estávamos entrando numa nova era: a da narrativa latino-americana. Mas os principais representantes dessa vaga latino-americana eram mexicanos, argentinos, chilenos, colombianos: Carlos Fuentes, Octavio Paz, Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, sem falar no genial e inclassificável Jorge Luís Borges.
Ora, o Brasil não compareceu a esse encontro. Seu maior escritor, João Guimarães Rosa, foi um dos que não desembarcaram às margens do Sena, em parte devido à dificuldade de sua escrita, em parte porque as primeiras traduções que se fez dele eram detestáveis (só mais tarde a obra de Guimarães Rosa foi traduzida com cuidado e começou a ser melhor conhecida).
É claro que sempre houve o grande, o enorme Jorge Amado. Mas este sofria de um defeito sério: era gostoso demais de ler e, por consequência, a crítica o classificava automaticamewnte entre os escritores populares simplistas e quase vulgares. Os intelectuais franceses, que são terroristas e só conseguem respirar o ar rarefeito de James Joyce ou Samuel Beckett, não o reconheceram (da mesma forma que, no século 19, o genial romancista inglês Charles Dickens foi considerado um autor de segundo time pelos pedantes críticos franceses).
A chegada maciça dos escritores brasileiros, nesta primavera, deveria renovar esse quadro, um tanto tristonho e pessimista. Aliás, os editores franceses já começaram a tirar o atraso. Alguns dos grandes clássicos brasileiros, até então desconhecidos, foram publicados nos últimos anos, a começar pelos magníficos Sertões, de Euclides da Cunha (Ed. Métaillé) ou, mais recentemente, Le Continent e Le Portrait de Rodrigo Cambara, os dois primeiros volumes de O Tempo e o Vento, a trilogia de Érico Veríssimo (Ed. Albin Michel). Até mesmo o português Antônio Vieira, que é tão brasileiro, tornou-se acessível, este mês: a Ed. Chandeigne acaba de publicar La Mission dIbiapaba e o quase surrealista Sermon de Saint Antoine aux Poissons.
O Salão é interessante também porque, não contente em expor 10 mil volumes, o Brasil dará também a palavra a seus representantes, em numerosos colóquios, debates, conferências e, aí, poderemos contar com o poder de sedução ou a força de Lygia Fagundes Telles, Fernando Gabeira, frei Beto, Carlos Heitor Cony e outros. Nem é preciso dizer, também, que Paulo Coelho estará presente para o lançamento de seu novo livro, La Cinquime Montagne, pela editora Anne Carrire. Ele será certamente assaltado, talvez até sufocado pela multidão de seus admiradores, a julgar pelas tiragens mastodônticas de seus livros na França. Um dos enigmas mais perturbadores da atualidade é a paixão que o francês - o povo mais inteligente do mundo, como se dizia antigamente - tem pelos livros de Paulo Coelho.
Em todo caso, por ocasião deste Salão, a honra dos críticos franceses esteve a dois dedos de ser lavada, se acreditarmos nos rumores que corriam, ontem de manhã, em Paris. Dizem que um escritor francês, especialista em pastiches, teria escrito um livro intitulado LÂne Chimiste (O Burro Químico), parodiando LAlchimiste, o livro de Paulo Coelho. E o assinou Paul Connaud - palavra que significa cretino mas com uma conotação chula, pornográfica, escatológica (o termo mais próximo em português seria babaca que, como o termo francês, além de significar idiota, também faz referência ao órgão sexual feminino).
O autor desse pastiche não é um qualquer: ele se chama Patrick Rambaud e recebeu, no outono passado, o maior prêmio literário francês, o Goncourt, por seu romance napoleônico La Bataille. Infelizmente, esse livro, que deveria ser publicado pela editora Calmann-Lévy - que é uma filial do poderoso truste Hachette -, não o será mais, pois a editora Anne Carrire, que publica toda a obra de Coelho, pertence também ao grupo Hachette. Com isso, o diretor da Calmann-Lévy teve de pedir polidamente a Rambaud que adie a publicação de seu pastiche. E Rambaud, polidamente, aceitou. Paulo Coelho pode dormir sobre os louros.


