Quinze anos. E que ninguém venha com esse papo de que ‘‘parece que foi ontem’’ porque não foi. Pois bem, depois de mais de 5 mil dias Djavan volta a pisar num palco londrinense, mais precisamente no do Cinema Café. Será hoje, a partir das 22 horas. O show é baseado no mais recente disco do cantor e compositor alagoano, ‘‘Bicho Solto, o XIII’’. Mas, claro, os hits djavaneanos não poderiam faltar - vêm com uma roupagem mais atual.
É um show dançante, por natureza. Mas vai haver espaço para os momentos mais íntimos. Gravado por alguns dos medalhões da MPB - Roberto, Bethânia, Caetano, Gal - o cantor e compositor parece estar caindo nas graças também de cantores populares. A dupla Claudinho e Buchecha, por exemplo, pinçou ‘‘Lilás’’. E, pasmem, Zezé di Camargo e Luciano devem registrar no próximo disco a belíssima ‘‘Pétala’’.
Corre um zunzunzum por aí que Djavan poderia repartir o microfone com a dupla. Ele, por enquanto é reticente. ‘‘Jamais fiz nada para atender ao mercado e modismo. E se vier a gravar com Zezé e Luciano é porque eu quis fazê-lo e não por outra razão’’ - disse ele à Folha2. A seguir os principais trechos da entrevista:



Podemos dizer que com ‘‘Bicho Solto’’, o novo disco, você assumiu ou reassumiu seu namoro com o pop?
Olha, na verdade o disco foi idealizado com o objetivo de gerar diversão e prazer que é como eu trato o meu trabalho. E essa música que você chama de pop... Quer dizer, a música que eu faço hoje decorre da minha formação que foi muito eclética - que vai do clássico a Luiz Gonzaga.
Mas até então tinha um pouco de pop mas vinha com mais levadas jazzísticas, não?
Não. Sempre teve de tudo na minha música. Sempre tive um grande prazer em fazer fusões, em descobrir novos ritmos, novos encadeamentos harmônicos. É que eu sempre achei que o futuro da música era a fusão. Então, em vez de eu estar com este disco indo em busca do pop reincidentemente ou não, o que eu quis foi fazer um disco mais dançante. Comecei a ter uma necessidade de me mover mais no palco porque a guitarra me escravizava um pouco. Como disco e show são indissociáveis, eu pensei: ‘‘quero fazer um disco em que eu toque menos, para estar mais livre da guitarra e me locomover melhor no palco’’.
Havia necessidade realmente de ‘‘Meu Bem Querer’’ ser rearranjada ou isso foi feito em função da novela?
O pessoal da Rede Globo me ligou dizendo que a novela havia adquirido o nome de ‘‘Meu Bem Querer’’ em função da música, e que eles gostariam muito que fosse tema da novela. Falei: ‘‘Pô, não é possível porque é a terceira vez que essa música volta às novelas.’’ Eles perguntaram se eu tinha interesse em fazer um nova gravação, para ser uma coisa mais exclusiva e tal. Eu achei um desafio excelente porque a gravação original de ‘‘Meu Bem Querer’’ tem 18 anos...
E é antológica.
É antológica, um clássico. Mas na verdade fiz esse novo arranjo não para ser comparado com a versão original e sim para fazer uma versão com um acento um pouco menos, menos...
Dolorido?
É, dolorido... Menos dolorido que o arranjo anterior. Claro, a música tem uma carga dramática grande que não dá para tirar. Mas eu queria que ela fosse um pouco mais feliz que a anterior.
Há muito de brasilidade em suas canções. Mas você há de concordar suas músicas têm um certo padrão que simpatiza e agrada aos ouvintes do exterior. Vamos resumir sua música como World Music ou isso é muito pouco?
Essa denominação não tem nada a ver com o estilo da música, com o compositor, com nada. O americano precisa rotular para poder manipular. Então, World Music pode ser a minha música, a música do Roberto Carlos, pode ser qualquer música que penetre nos EUA e que não seja cantada em inglês.
A impressão que passa é que você tem olhos mais direcionados para o mercado americano e europeu do que para o latino...
Não exatamente. O que ocorre é que logo no início da minha carreira os EUA foram priorizados, não por mim até mas por produtores e gravadoras... Eu acho que comecei a penetrar no mercado latino muito tarde. Só há cinco anos é que comecei a fazer turnês latino-americanas. E eles me perguntam: ‘‘ Por que você começou a aparecer aqui tão tarde se sua música já está aqui há muito tempo?’’. E eu digo: ‘‘Por uma ignorância mesmo do Brasil’’. O Brasil é uma ilha e não compartilhamos com esse universo hispânico que é tão rico.
Adélia Prado o chama de poeta. Alguns críticos o classificam como um exímio letrista. Afinal, existe uma preocupação em aproximar suas letras mais para o lado da poesia?
O que ocorre na verdade é que sou um músico que ama as palavras. Sempre gostei de poesias, sempre li Garcia Lorca, Pessoa, Drummond, Adélia, que é minha musa maravilha. Adoro Adélia, adoro seu texto, adoro sua inspiração. Eu sempre, graças a Deus, consegui reunir esse dois conteúdos com interesse igual. Ou seja, a nota musical e a coisa da palavra, da contemplação. Sou alagoano, aprendi a contemplar o céu, as estrelas, aprendi o nome das constelações com minha mãe.
É verdade que você vai gravar uma música com o Zezé di Camargo e Luciano?
Eu não sei... Eu não li essa notícia mas vieram comentar sobre isso. O eu que sei é que o Zezé di Camargo e o Luciano gostam de ‘‘Pétala’’ e querem gravá-la. Eles me ligaram e eu cheguei a dizer: ‘‘Ótimo, podem gravar. Acho muito boa idéia’’. Mas não ficou certo se eu cantaria com eles.
Você cantaria se fosse convidado?
Talvez... Não tenho certeza do que poderá acontecer.
Eu lhe pergunto isso porque agora Bethânia grava Zezé, Caetano canta Peninha, Gian e Giovani gravam Cazuza. Esse preconceito de um não entrar na área do outro era dos artistas ou dos críticos?
Eu só posso te dizer uma coisa: qualquer coisa que acontecesse comigo, envolvendo minha profissão, só aconteceria se eu quisesse mais do que qualquer outra coisa independente de modismo. Aquilo atendeu a um prazer meu, mesmo que seja momentâneo. Se eu vier a gravar com Zezé e Luciano é porque eu quis fazê-lo e não por outra razão.
•Show com Djavan. Hoje, às 22 horas, no Cinema Café (Avenida Rio, 135 A). Ingressos antecipados a R$ 15,00. Mesas a R$ 120,00. Pontos de venda: Pátio San Miguel e na bilheteria da Casa de Shows. Mais informações pelo telefone (043) 338-0080.DivulgaçãoDjavan mostra ‘‘Bicho Solto’’ em Londrina: disco idealizado para gerar diversãoAntônio Mariano Júnior

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