DJ traz o indie-alternativo
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terça-feira, 08 de junho de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Você discoteca com CD ou vinil?
Com os dois. Depende da aparelhagem que me oferecem nas festas ou em casas noturnas. Opto por vinil quando tenho algum disco não lançado em CD. O problema é que algumas casas não têm um som muito bom, daí rola uma defasagem do vinil em relação ao CD. É um problema do próprio som da casa.
O que você vai tocar hoje à noite em Londrina?
O meu estilo é indie-alternativo. Não vou fugir muito das bandas dos anos 90: Pixies, Smashing Pumpkins, Teenage Fanclub, por aí. Não pretendo mostrar muitas novidades, não sou Lúcio Ribeiro (colunista pop da Folha de S.Paulo).
Você tem fama de ser um colecionador compulsivo de discos. Dá para ter uma idéia de quantos vinis e CDs estão estocados em sua casa?
Devo ter de 5 a 8 mil vinis e uma média de 5 mil CDs. Eu não sou muito organizado, não tenho nada catalogado. Procuro guardá-los em ordem alfabética. Mas não sou de comprar por compulsão. Eu compro porque gosto de música, compro porque vejo importância musical naquilo. Faço isso desde os 10 anos de idade.
Qual foi o primeiro disco que você comprou?
Foi o compacto ''Magical Mistery Tour'', dos Beatles. Depois peguei o dinheiro para a compra de passes escolares e adquiri o LP com a trilha do filme ''Yellow Submarine''. Passei um mês indo para a escola a pé. Antes, o meu irmão tinha me dado o compacto ''A Hard Day's Night''. Ele era fã dos Beatles e me levou para assistir aos filmes ''Os Reis do Iê-Iê-Iê'' e ''Yellow Submarine''. Fiquei fascinado.
Como você se virou nesta fase para continuar adquirindo discos?
Eu estudava num colégio estadual, mas havia vários moleques de classe média ali. Na época, pintou um português rico na parada que me emprestou muita coisa. Na verdade, eu emprestava e não devolvia. Vivia emprestando também a vitrola dele. Ele recebia dólares de uma tia e, um dia, dei um truque nele pegando os dólares para comprar o ''Álbum Branco'' dos Beatles. O cara não era bobinho. Ele tinha muita grana, sabia dos sons que eu gostava e não ligava para as minhas sacanagens.
Tem algum disco que você considere o melhor de sua coleção?
É díficil dizer. Mas o ''Álbum Branco'' dos Beatles e o ''Exile on Main Street'' dos Rolling Stones são marcos históricos na minha vida. Os dois mexeram comigo. O primeiro abriu minha cabeça para várias direções musicais. Foi através dele que aprendi a gostar de todos os estilos, porque ele continha todos os estilos, do blues ao folk, country e psicodélico. Já o disco dos Stones abriu minha cabeça para a música negra americana, que eu não gostava. Eles eram mais pretos que os Beatles, me fizeram conhecer a black music, os artistas da Motown.
Você é rato de sebos?
Estou sempre fuçando. Em São Paulo, tem alguns muito bons, além de feiras de discos. Já achei muita coisa boa, principalmente em vinil.
Você viaja para o exterior para comprar discos?
Pelo menos uma vez por ano, procuro viajar. Mas costumo comprar também pelo correio, além de encomendar para amigos, já que importar pelas lojas ficou complicado.
Alguma banda nova tem chamado sua atenção?
Ouço muita coisa de várias facções. Entre as novas bandas gosto de Franz Ferdinand, Magnetic Fields, Modest Mouse, Beta Band, McLusky e Divison of Laura Lee. Das já consagradas, gosto dos Strokes e do The White Stripes. Do Brasil, gosto bastante de bandas paulistanas como Ludov, Motores, Lambrusco Kids e Os Excluídos. Como eu tenho um pezinho no punk, gosto também do Os Predrero, que é uma banda divertida do Espírito Santo com três discos gravados. Gosto ainda do Grenade, de Londrina, e do Pelebrói Não sei, de Curitiba.
Você está fazendo shows com o Magazine?
O Magazine virou mais um revival do que um projeto sério de banda. A gente toca quando nos convidam para animar alguma festa dos anos 80, que está na moda. Outro dia nos chamaram para tocar no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, ao lado de Ritchie, Léo Jaime e outros artistas. Há dois anos, gravamos um disco pela Trama, mas não deu muito resultado. Aí demos uma parada e nos dispersamos. De vez em quando tocamos sem compromisso.
Há algum outro projeto de banda em vista?
Comecei a desenvolver um projeto novo, o Kid Vinil Experience, com dois garotos da banda Crazy Legg, que toca rockabilly. A idéia é tocar covers do punk-77 inglês, coisas do The Jam, Damned e até da banda Dr. Feelgood. Mas estamos começando a formatar. É mais para diversão.
Você já apareceu na MTV fazendo cobertura de festivais de rock ingleses. Qual foi o show inesquecível, o mais marcante que você assistiu?
O grande show foi do The Clash, no auditório da Universidade de Leeds, na Inglaterra. Foi o show de lançamento do álbum ''London Calling'', em 1980. Acho que chorei o tempo todo, nunca vi tanta energia junta num palco.
O que você acha da nova linha adotada pela MTV, que passou a privilegiar programas de variedades em detrimento de programas estritamente musicais?
Eu não gosto do que a MTV é hoje. Antes os programas mostravam músicas legais e eram apresentados por pessoas legais, que conheciam música e tinham o objetivo de mostrar músicas legais. Havia Fábio Massari, Gastão e Soninha. O ''Lado B'' (programa dedicado ao rock alternativo) deixou de ser o que era. Só exibe clipes. A MTV optou pelo lado comercial, abandonando a coisa mais alternativa.
E o rádio? Como está o panorama hoje para a música pop?
Está melhor do que a televisão. Viajo muito e percebo que existe pelo menos uma emissora em cada Estado que dedica boa parte de sua programação ao rock. É legal isso, afinal a música pop faz parte da cultura brasileira e em qualquer lugar do mundo existem rádios assim. A Brasil 2000, onde trabalho, é a estação mais alternativa de São Paulo. Mas aqui tem ainda a 89 FM, a Kiss e a Mix. São rádios legais, como a 96 FM de Curitiba, que estão no meio-termo entre o pop e o alternativo. A maioria precisa do ibope, da audiência para ter faturamento. Não tem como fugir disso. A Brasil 2000 paga seu preço por tocar sons desconhecidos. O público é pequeno, já que não é todo mundo que está antenado. De qualquer forma, o rádio está em melhor situação que a televisão, que se perdeu totalmente. A TV é um veículo cada vez mais popular. Deixou de trazer informação. No máximo, tem o jornalismo, mas esse departamento depende também de quem está na direção.


