ReproduçãoDizzy Gillespie: ele caprichava nas vestimentas e exagerava na irreverência fazendo nos anos 40 a sua revolução sonoraAs bochechas inflavam soprando o conjunto de válvulas que culminavam em uma corneta torta. As notas surgiam em profusão, oscilando em constantes agudos. Na cabeça, um chapéu esquisito, acompanhado de vestimenta ainda mais estranha. Dizzy Gillespie foi um músico revolucionário e rebelde. Não só foi primordial para o surgimento do Be-Bop, nos anos 40, como questionou o tratamento reservado aos negros pela sociedade americana.
Dizzy Gillespie nasceu em uma pequena cidade da Carolina do Sul, em 21 de outubro de 1917, há 80 anos. Seu pai era um mestre de obras que se aventurava com sucesso pela música, tocando vários instrumentos. O garoto herdou o gosto e por pouco não virou trombonista. Ainda criança, seus braços não alcançavam a posição necessária para tocá-lo. Optou por um instrumento mais curto, e encontrou o trompete.
Dali em diante o rapaz desenvolveu técnicas, tocou na Filadélfia e rodou por algumas orquestras até entrar para a de Cab Calloway. Nesta época, Gillespie já apresentava em seu fraseado características que desenvolveria posteriormente, no Be-Bop. Também foi neste período que conheceu o saxofonista Charlie Parker.
Os dois passaram a se encontrar com frequência em um bar de Nova York, o Minton’s Playhouse, no bairro negro do Harlem. O dono do lugar incentivava a presença de músicos, dando liberdade de repertório e servindo bebida gratuita para quem tocasse.
Como o bar era um verdadeiro achado, lotava de músicos. A saída, então, era subir o nível das interpretações para afastar os maus intérpretes. Acompanhado com frequência pelo pianista Thelonius Monk, Gillespie passou a usar acordes com várias dissonâncias, abusando nos agudos.
Música estranhaO estilo passou a ser imitado, mas Dizzy e seus companheiros já tinham cadeira cativa no palco do bar. Aos poucos, aquela música estranha foi tomando forma. O Be-Bop retirou instrumentos como baixo, bateria e guitarra da cozinha, colocando-os na linha de frente, inclusive incentivando os solos. E a clarineta, idolatrada pelas big bands, foi abolida. Além do quinteto trompete, saxofone, piano, baixo e bateria, instrumentos como o trombone, vibrafone e guitarra às vezes completavam o conjunto.
A nova força do jazz afastava os antigos músicos, que não conseguiam seguir o estilo, e muito menos compreender um ritmo marcado, na maioria das vezes, no segundo e quarto tempos. A música parecia fora de compasso, tão torta quanto o trompete de Gillespie.
Mas, com a revolução encabeçada pelo trompetista, o jazz passou a ser visto com outros olhos, que o afastavam da música de mero entretenimento, como até então era creditado. Além disso, os jovens boppers viam, nas antigas gerações, uma certa servidão do músico negro à sociedade. Louis Armstrong, com o sorriso simpático e os olhos esbugalhados, era visto como uma espécie de ‘‘bom negro’’, que se esforçava para agradar os brancos.
Gillespie queria exatamente o contrário. Exaltava a cultura negra e fazia questão de chocá-la com a sociedade americana, rispidamente racista na época. Por isso exagerava nas vestimentas e caprichava na irreverência. O estilo foi copiado, e usar boinas e óculos escuros à noite se tornou moda entre os músicos de jazz.
Por isso, quando numa ocasião dividiu o palco com Armstrong, o constrangimento foi evidente. Não só a dificuldade de compartilhar a mesma melodia em estilos tão diferentes provocava o mico. Armstrong havia aumentado os recursos do trompete em uma oitava. Gillespie tornara o instrumento centro de uma revolução musical que separou o jazz em tradicional e moderno.
Dizzy Gillespie também se enveredou pelos ritmos afro e latinos. Em seus conjuntos, abrigou o percussionista Airto Moreira e a cantora Flora Purim, ambos brasileiros, além de gravar composições de Tom Jobim e compor clássicos como ‘‘A Night in Tunisia’’. Gillespie chegou a gravar mais de cem discos até morrer, em 93, de câncer no pâncreas. O músico - ao contrário de Charlie Parker - permaneceu longe do álcool e das drogas, e viveu o suficiente para ver suas inovações se multiplicarem em várias tendências que compõem o jazz atual.

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