Curitiba Foi em nome da religião que Gilmar Tavares, Ogan do candomblé baiano responsável pela evocação dos orixás, através dos cantos e toques , veio parar no Paraná. Há um ano morando na cidade, Tavares já cumpriu sua missão de preparar um terreiro local para servir às divindades como mandam as tradições vindas da África. Agora mostra seu trabalho com o cinzelamento de metais em ''Orô, as ferramentas do axé'', uma exposição que abriu esta semana no Memorial de Curitiba.
A arte que o Ogan Tavares trouxe para os domínios da Fundação Cultural é toda relacionada aos 16 orixás que regem o candomblé brasileiro. Na África, existem mais. Um espelho dourado para Oxum, a deusa da vaidade, da beleza e sedução. ''O ouro é o metal mais precioso e é com o mesmo que homenageamos Oxum. As peças criadas para ela são o carro-chefe da exposição.''
Nessa linha de pensamento, de homenagear os deuses sagrados da religião, cada um deles tem um metal primaz. Alpaca, cobre, bronze são minuciosamente trabalhados por uma arte trazida ao Brasil por mestres africanos ainda no século 19. No intuito de fundar em Salvador casas de candomblé, os estrangeiros foram chegando e trazendo as tradições junto consigo.
É dessa geração que descende Gilmar Tavares. Nascido e criado em um clima de religião, o Ogan vive estritamente dedicado aos ensinamentos dela. Ele diz que recebeu dos próprios orixás as orientações de como formatar os objetos que hoje estão em exposição. ''Cada orixá é movido por um elemento da natureza e nosso culto é diretamente ligado a ela'', explica Tavares, no intuito de deixar claro o preceito da religião. Buscar na natureza a força necessária para evoluir espiritualmente e agradecê-la pelo que ela dá ao homem é primordial ao candomblé.
Essa dedicação à espiritualidade vem sendo seguida pelo Ogan há 30 anos. Iniciado em 1973, ele é um discípulo dedicado. ''Vivo a serviço da arte. Sou totalmente autodidata. Para fazer o que faço é preciso entender o candomblé.''
A vivência tem levado o artista a sofrer o que ele classifica de retaliação. Com um projeto aprovado pela Lei Rouanet e também pela lei estadual baiana de incentivo à cultura, até agora ele não conseguiu patrocínio. Dentro dos planos de Tavares está montar um desfile didático onde cada orixá seria apresentado com suas devidas vestimentas e seus adereços cinzelados pelo mestre. ''Não sei por quê. Não consigo patrocínio de jeito nenhum'', resmunga.
A dificuldade para mostrar seu trabalho a um número maior de pessoas não deveria soar estranha para Tavares. Num país tipicamente católico que ainda se recusa a aceitar as outras religiões como uma opção natural de cada um no seu culto aos seres superiores, ter um projeto ignorado pelas grandes empresas é compreensível. Aceitável nunca.
A arte que está apresentada em obras que cultuam os orixás é tão valorosa quanto qualquer outra manifestação criativa. Fazer descaso ou ignorá-la é um ato de recusa às tradições que colocam o Brasil num panteão de países onde a diversidade de religiões é uma riqueza cultural.
SERVIÇO:
Exposição ''Orô, As Ferramentas do Axé''. Memorial de Curitiba - Salão Paraná - 2º andar (Rua Claudino Santos, s/n-Centro Histórico), em Curitiba. De terça a sexta-feira, das 9 horas às 12 horas e das 13 horas às 18 horas. Sábados e domingos das 9 horas às 15 horas. Mais informações pelo telefone (41) 233-8594
A mostra aberta fica até 9 de março.

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