Dividindo o mesmo teto
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Felipe Branco Cruz<BR>Agência Estado 
O mundo do rock está cheio de histórias de músicos que, nos primeiros anos de banda, decidiram dividir o mesmo teto, quase sempre por necessidade. Beatles, Rolling Stones e Guns N' Roses são alguns bons exemplos. No período em que os integrantes dessas bandas moraram juntos, o dinheiro era pouco e sobrava criatividade, festas, orgias, álcool e drogas. Se no exterior as cidades de Londres, na Inglaterra, e Nova York, nos Estados Unidos, foram os locais que atraíram essas bandas, no Brasil, São Paulo é a capital das repúblicas musicais. Grupos de todo o País (Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais) migraram para a capital paulista em busca de trabalho e reconhecimento.
As semelhanças com os grupos musicais de outros tempos são, principalmente, pouco dinheiro e muita criatividade. As festas, orgias e drogas, no entanto, já não fazem mais parte da nova geração de músicos, cuja maior preocupação é a arte.
A maioria das bandas vive em grandes casas, de quatro a cinco quartos, em bairros residenciais como Perdizes, Barra Funda, Santana e Pompeia, e estão mais preocupadas em pagar as contas no fim do mês do que se acabarem em festas e baladas que varam a madrugada. Quase todas as casas possuem um porão que é transformado em estúdio, onde os grupos ensaiam e compõem. A média de idade dos integrantes fica entra 25 e 30 anos. ''Em São Paulo, a imprensa nos procura naturalmente. É fácil participar de um programa de televisão. É aqui, também, onde acontece a maior parte dos shows'', diz Renné Fernandes, da banda Hevo 84. ''Para viajar para outros lugares, também é mais barato, pois existem voos para todas as capitais. Isso, sem contar na economia com moradia, pois dividimos todas as despesas'', completa. A banda está na capital paulista há quase dois anos, numa casa de três quartos em Santana, onde vivem cinco pessoas: os quatro integrantes e o produtor da banda. ''Temos até um mural com a escala de limpeza de cada um. Se hoje eu lavei o banheiro, da próxima vez será outro. Não temos nem faxineira'', diz.
Os cariocas do Ramirez também estão na mesma situação. Há um ano em São Paulo, eles vivem num apartamento de quatro quartos em Perdizes. ''Estamos numa cidade que não é a nossa. Assim, nos tornamos uma família e um cuida do outro. Acho que essa é a parte mais legal de morar junto'', diz o vocalista Frank. Já os quatro amigos baianos da banda Vivendo do Ócio dividem uma casa de três quartos na Pompeia, há dois anos. O lugar tem um porão que eles adaptaram para estúdio. ''Sempre fomos amigos em Salvador. Mas morar junto está sendo uma experiência enriquecedora. É completamente diferente tocar juntos a madrugada inteira num show e depois voltar para casa e acordar com o pessoal da banda'', diz o vocalista Jajá Cardoso.
Há mais tempo na cidade - sete anos -, os integrantes da banda Vanguart explicam que já passaram por maus bocados. ''Quando você chega a São Paulo, a sua galera é o pessoal da banda. Você não conhece mais ninguém'', diz o vocalista Helio Flanders. ''Costumo olhar pelo lado bom. Somos obrigados a amadurecer e isso antecipa certas desavenças que a banda só teria anos mais tarde'', avalia. ''Financeiramente, morar junto pode salvar uma banda''. Por outro lado, Marcelo, vocalista do Strike, que divide uma casa em Pinheiros com os cinco integrantes do grupo, lembra que é preciso separar trabalho da vida comum. ''Não dá para ficar falando de música o tempo inteiro. Temos de separar a hora de trabalhar do momento de diversão.''
Dessa turma toda, os mais experientes são os pernambucanos do Mombojó. Há quase oito anos, eles vivem numa casa na Pompeia, onde a banda Pavilhão Nove chegou a gravar um disco. Por lá, o clima é o melhor possível. Quadros de ídolos do rock enfeitam as paredes. Na sala, uma bela mesa de sinuca distrai o pessoal. ''Não temos a estética do rock, de usar drogas, baladas. Nosso negócio é jogar futebol, videogame e sinuca'', diz o tecladista Chiquinho. ''E quando bate a criatividade, é só chamar a galera e compor uma música nova.'' Sem sair de casa.


