Londrina, PR, 14 (AE) - Diversidade cultural deixou definitivamente de ser mais uma expressão da moda para transformar-se em experiência sensível e conceito internalizado por todos os que acompanharam os 36 espetáculos do Festival Internacional de Londrina (Filo), encerrado domingo.
Com 13 dias de duração e tendo como mote "rumo ao festival de todas as artes no ano 2000", o Filo reuniu teatro, dança, clowns, teatro de rua e shows de música, de companhias do Brasil, da França, Polônia, Argentina, Bélgica, Espanha e dos Estados Unidos em espetáculos de surpreendente singularidade, ousadia e radicalidade de propostas.
Na programação havia desde um espetáculo teatral como "The Fragrance of Time", do grupo polonês KTO, realizado para 1.200 pessoas ao ar livre, até "Em Algum Lugar do Passado", do Grupo Caixa de Imagens, limitado a apenas um espectador que assistia, em puro encanto, à performance de três minutos de um fotógrafo lambe-lambe, um boneco de quatro centímetros manipulado pelos integrantes do grupo.
Também havia desde um espetáculo de dança como "In Spite of Wishing and Wanting", do belga Wim Vandekeybus, que mesclava cinema, teatro e dança em deslumbrantes coreografias, até a mais pura dança executada com primorosa técnica em "Not Garden", criação do americano Stephen Petronios - ambos coreógrafos de renome internacional que trouxeram ao Filo espetáculos inéditos no Brasil.
O conceito de transcultural, de trânsito entre linguagens artísticas e públicos, que orientou a 32.ª edição do Filo, realizou-se com absoluta clareza por meio da programação musical. Ney Matogrosso, Elza Soares, Lobão, Alcione, e as bandas Mestre Ambrósio, Racionais MCs, Karnak e Farofa Carioca apresentaram-se no Cabaré, um espaço teatralizado que funcionava como ponto de encontro após a programação diária e misturava os mais diversos públicos.
"Nunca assisti a um show de Elza Soares e nem pensei que fosse ver um dia", comentava uma jovem estudante de artes cênicas na entrada do Cabaré. Quando Elza Soares, durante o show
lembrou a importância de Cartola e Adoniran Barbosa, a platéia aplaudiu em uníssono e seu discurso ganhou uma dimensão inimaginável numa simples casa de shows. Ali, sua apresentação estaria restrita a seu público alvo e seria consumida como um programinha antes do jantar, mais um produto da indústria cultural, numa sociedade cada vez mais regida pela lógica de mercado que reduz a arte a mero entretenimento.
Cidade participa - Ao tomar ruas e praças, promover debates e oficinas, o Filo envolveu a cidade e, de simples evento, instaurou-se como fato cultural de grande ressonância e, pelo menos durante 13 dias, resgatou em Londrina a verdadeira importância da arte. Ressonância que podia ser captada nas ruas por onde passaram os oito diferentes espetáculos de grupos como o francês Cacahute, que explorava temas tabus como sexo, morte e a manipulação do corpo, imposições sem concessões ao gosto médio e com rara ousadia no teatro de rua. No terminal de ônibus local, que abriga o camelódromo da cidade, pararam literalmente o trânsito numa divertida performance, na qual uma família pobre tenta levar o caixão da mãe de ônibus para o cemitério. "Nossa sociedade está empurrando a morte para longe dos olhos", argumenta o diretor Pascal Larderet. "O que é isso?", espantou-se um ambulante. "É aquele teatro, o Filo", informou outro."Mas com caixão? Teatro é para ser alegre", protestou o segundo. "Mas eles fazem a gente rir até da morte", argumentou o primeiro. "Coisa besta", insistiu o outro. "Besta para quem é besta, para mim isso é cultura e eu gosto", fechou a discussão o primeiro.
Mas a orquestra de buzinas propiciou um novo argumento. "Eles engarrafaram a rua", voltou à carga o colega. "Deixa, o trânsito está sempre aí, eles não." Se a arte é mesmo a derrota da rotina, é adquirir um novo olhar sobre a vida, bingo para o grupo.
A renovação do olhar sobre o fenômeno artístico foi uma das marcas do festival. Quem ainda achava que a arte do riso era coisa menor certamente mudou de idéia após assistir, na praça, à comovente apresentação do palhaço Xuxu, criação do diretor Luiz Carlos Vasconcelos, diretor do grupo Piollim, da Paraíba. Ou, no teatro, divertiu-se com o clown Mister Yoowho, criação do norte-americano Moshe Cohen, em elaborada performance. Ou, ainda
participou da oficina A Arte da Bobagem, ministrada pelo Silva, primo do Souza, clowns criados pela brasileira ¶ngela de Castro, que há 10 anos mora na Inglaterra onde sua família de clowns vem recebendo aplausos e prêmios.
Arte de resistência - O Filo contou ainda com as apresentações dos espetáculos "Desobediência Civil", da atriz Denise Stoklos, "Cuando la Vida Eterna se Acabe", do grupo espanhol La Zaranda, "Le Cirque Clandestin", com os franceses Les Frres Kazamaroffs, e "Vau de Sarapalha", com o grupo Piollim. Também integrou a programação oficial o ótimo espetáculo "Lúdico", do Ballet de Londrina, dirigido pelo coreógrafo Leonardo Ramos, cuja qualidade técnica e artística sem dúvida é um entre os muitos reflexos positivos de 32 anos de existência do Filo. Ou "resistência", como prefere dizer Nitis Jacon, diretora do festival promovido pela Universidade Estadual de Londrina e pelo Grupo Teatral Núcleo I, que a cada ano enfrenta imensas dificuldades para realizar o Filo.
Ainda assim, a incansável Nitis tem planos ambiciosos para o festival do ano 2000, entre eles a vinda do premiado espetáculo de clowns "Snowshow", com o russo Slava Polunim e a brasileira ¶ngela de Castro. E ainda "Città Invisible", com o grupo italiano Potlash, que cria espetáculos únicos, pensados para a cidade onde se instalam, e que seria criado especialmente para Londrina. É torcer para que ela consiga, porque o Filo reúne todas as condições para ser o grande festival brasileiro do ano 2000.

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