A questão ainda é polêmica, gera discussões acirradas, mas agora é difinitivo: o sistema de cotas para afrodescendentes e indígenas é constitucional, segundo decisão aprovada, semana retrasada, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima da justiça brasileira. Esse é um dos pontos que estão sendo trabalhados no Colégio Estadual Professora Roseli Piotto Roehring, que desde o ano passado mantém um grupo multidisciplinar de estudo sobre a diversidade étnica do negro e do índio, promovendo ações pedagógicas e culturais durante o ano todo através do projeto Africanidades.
''Considero essa decisão muito importante para melhorar o acesso do negro e do índio ao ensino superior dentro de um processo histórico. No caso do negro, mais especificamente, é uma ação de política pública que já deveria ter sido tomada antes. Desde a época da abolição da escravatura (dia 13 de maio de 1888) ele ficou à margem. Deixou de ser escravo para ficar à mercê do sistema, sem estudo e condições adequadas de trabalho. Vítima de uma legislação discriminatória'', avalia a professora de matemática Celiana Lucia da Silva, que é afrodescente e também está no terceiro ano do curso de direito na Faculdade Arthur Thomas.
Recentemente, em um trabalho realizado com a sua turma do ensino médio noturno, ela abordou de forma mais contundente o sistema de cotas. Os alunos fizeram estudos de gráficos sobre o assunto, responderam questionários e debateram a questão. ''Foi interessante observar o quanto eles ficaram admirados com o fato da maioria das vagas de instituições públicas serem preenchidas por alunos provenientes de escolas particulares'', diz.
Ela também pontua que outro aspecto pertinente é a dificuldade de acesso dos alunos de escola pública a cursos considerados ''mais elitizados'', como medicina e direito. ''Teoricamente o conteúdo curricular é o mesmo, mas a estrutura e as condições de estudo são diferentes. E, infelizmente, são poucos os alunos negros que chegam a concluir o ensino médio diante da necessidade de priorizar o trabalho desde cedo'', acrescenta Celiana.
O professor de história Idevan Carlos Rossi destaca que no dia a dia escolar o bullying com foco no preconceito racial também faz parte da abordagem dos professores por uma mudança de mentalidade. ''Entre os próprios alunos negros há preconceito e precisamos trabalhar essa questão com eles. Hoje, já podemos perceber mudanças positivas; esse tipo de comportamento está diminuindo'', afirma.
O fato é comprovado pela professora de português Maria Martins Fernandes, que recorda o quanto era comum ver alguns dos seus alunos se referindo uns aos outros como ''macaquinhos''. ''O mais triste é que quando fui conversar com eles pude verificar que até mesmo em casa eles eram chamados dessa forma'', lembra, dando um exemplo de como o preconceito está naturalizado na cultura brasileira.
A professora de filosofia Marileide Soares de Lima, mais conhecida como Leda, ressalta que em suas aulas também procura enfocar o valor do negro no ''campo das ideias'', destacando informações como o fato de o Egito Africano ser a fonte da civilização ocidental. Vale lembrar que os sistemas teológicos e filosóficos gregos também se originaram do Egito, onde vários escritores como Sócrates, Platão, Tales, Anaxágoras e Aristóteles estudaram com sábios africanos.
''Prefiro um discurso lógico em que devo respeitar o negro não por eu ser uma boa pessoa, mas porque ele é humano, um ser racional, inteligente, com todos os problemas intrínsecos a isso, como qualquer um de nós, independente da etnia'', defende.
''O Brasil é um país de muitas desigualdades sociais e acredito que o problema de oportunidades igualitárias é mais amplo, mas de qualquer forma acho que o sistema de cotas é um paliativo necessário, embora o governo também devesse investir de forma maciça no ensino público de qualidade dentro da visão de uma educação realmente democrática'', acredita.
No ano passado, o grupo multidisciplinar também realizou uma série de atividades culturais dentro da temática de estudos das relações étnico-raciais. Jantar com comidas típicas da África, desfile de moda com roupas africanas, curso de cestaria indígena e apresentação de capoeira integraram a programação.

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