Diversão para quem fica em casa
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
ReproduçãoLiv Tyler em Beleza Roubada: feito para deleitar o espectador, filme tem molho sensual e locações esplêndidasA época - início de ano, férias, verão, sol às vezes - não é a mais dinâmica em lançamentos em vídeo. As distribuidoras, como de resto todas as pessoas do País, sensatas ou não, acabam apostando na tradição, isto é, que tudo volta à normalidade em março. Mas apesar do refluxo como habitual estratégia de marketing, alguns novos títulos sempre aparecem, e por falta de concorrentes acabam caindo na preferência da modorrenta platéia que já voltou da praia, que ainda não foi à praia ou que, encharcada, deu meia volta a meio caminho da praia. A ordem, pois, é grudar na telinha. E se hoje o velho Luis Severiano Ribeiro fosse dono de circuito de locadoras e não de cinemas, com certeza mudaria seu slogan para ficar em casa ainda é a melhor diversão.
A Rocha -O filme disputa com Twister o primeiro lugar nas paradas. Um quase imbatível coquetel de testosterona. Um autêntico nerd (Nicholas Cage), que por coincidência é perito em armas químicas, se junta a um presidiário (Sean Connery) para missão impossível: invadir Alcatraz em ruinas e dar um corretivo num marine que pretende mandar São Francisco pelos ares por motivos aparentemente altruístas. Para sorte do espectador, a dupla Cage-Connery não leva a sério não apenas o argumento, mas todo show performático da tecnologia emburrecida. A dupla consegue injetar vida no que seria apenas um monte de metal e ferro. Especial para quem armazenou energia jogando cacheta na praia nos últimos dias de chuva.
Os Miseráveis -Imperdível se persistir o mau tempo. Duas horas e cinquenta e cinco minutos (sem os créditos) de pura chateação. Claude Lelouch quis reprisar o seu apenas passável Retratos da Vida (Bolero), adaptando livremente a austera obra-prima de Victor Hugo. O resultado é um sonolento painel de um período deste século, contado sem ritmo e sem charme. Nem os habituais compositores que acompanham Lelouch há um bom tempo (Francis Lai e Michel Legrand) estavam em seus melhores dias. Desta vez a roda do destino pregou uma peça em Lelouch, que poderia ter evitado expor-se e expor seus bons atores (Jean-Paul Belmondo, Annie Girardot) a desgaste desnecessário.
Twister -Credenciado pelos 230 milhões de dólares (só nos mercados americano e canadense) e por efeitos especiais espetaculares, o filme é melhor do que parece à primeira vista. Quer dizer, por trás de tratores, silos e vacas voadoras, o roteiro de Michael Crichton e a direção de Jan de Bont são espertos o suficiente para render certas homenagens. Principalmente ao cinema do mestre Hitchcock. Preste atenção: a força incontrolável dos ciclones tem a ver com a misterioso e apocaliptico comportamento das aves em Os Pássaros. E o personagem de Helen Hunt lembra a traumatizada Marnie às voltas com os traumas de infância. Crédito demasiado para um filme- entretenimento? Talvez, mas é inegável a assombração Spielberg segurando a batuta da direção nas entrelinhas (ou entrecenas ?) , não fosse ele produtor executivo. Detalhe: ver o filme em polegadas é uma tortura.
ReproduçãoCena de Twister: efeitos especiais espetaculares perdem um pouco do impacto na telinha
Emma -Talvez o mais complexo e melhor resolvido romance de Jane Austen, na moda depois de Razão e Sensibilidade. Uma visão panoramica dos costumes sociais ingleses no século 19, especialmente de uma certa aristocracia rural. O filme, do estreante Douglas McGrath, é frívolo e esnobe como convém às circunstâncias. Nem só de beleza sobrevive Gwyneth Paltrow (apesar do nome anti-estelar): há potencial de atriz por trás do sorriso iluminado. No elenco, a ótima australiana Toni Collette, que carimbou o passaporte para Hollywood com oO Casamento de Muriel. E também por aqui Ewan McGregor, colhendo os frutos de Cova Rasa e Trainspotting. Para ver às cinco da tarde, com chá e bolinho de chuva.
O Último Matador -Há 37 anos, John Sturges, bom diretor de westerns, adaptou uma obra-prima de Kurosawa, Os Sete Samurais(54). Agora, Walter Hill, cineasta de altos e baixos, partiu de Yojimbo, o Guarda-Costas, outro clássico do mestre japonês , para chegar a este O Último Matador. Na verdade, o que sobrou do original é quase nada. Além da mudança de época (Idade Média para anos 30), o épico monumental de Kurosawa foi transformado em guerra de quadrilhas de gangsters em cidade fantasma durante o período da Lei Seca. Desapareceu a crítica ao poder; e o personagem central, antes vivido com forte dose de cinismo por Toshiro Mifune, terminou agora com a cara sempre amassada de Bruce Willis. E depois de ver o filme, se achar que já viu alguma coisa parecida, não se enganou: este é um Duro de Matar 4. Para simples diversão: repare no especialista Christopher Walken, o mais requintado vilão de Holywood na atualidade.
As Duas Faces de Um Crime- Outro filme de tribunal. E não dos melhores, em que pese o esforço do roteiro em dar voltas em busca de uma originalidade que parece sempre escapar. Arcebispo de Chicago, com estranhas vocações terrenas, é assassinado e um ex-coroinha é o principal suspeito. Um advogado criminalista, tão competente quanto carreirista e inescrupuloso, pega o caso de graça. Descobre que a morte do arcebispo encobre falcatrua bem maior, e mesmo uma conspiração. O diretor Gregory Hoblit só consegue levantar vôo graças a melhor interpretação de Richard Gere em anos e especialmente à uma poderosa revelação de ator, Edward Norton, numa performance hipnótica que justifica plenamente o aluguel da fita. Mas o filme se perde na velha burocracia dos recursos fáceis de tribunal
Tubarão -Inexplicável, essa ausência de mais de 20 anos. Mas enfim...Quem pensou que Indiana Jones era o único sinônimo de aventura morreu na praia, devorado por um tubarão. Aliás, Encurralado e Louca Escapada já antecipavam o que viria a seguir. Era o fenômeno Spielberg , gênio judeu da suburbia americana, a buscar nas profundezas o medo ancestral da humanidade. Duas metades distintas: na primeira, coloca-se o problema comunitário. A ameaça até então invisível, a ambição desmedida, a impotência.
Na parte final, a batalha em mar aberto, território do inimigo. A aventura pela aventura. A lei (Roy Scheider), a ciência (Richard Dreyffuss) e o instinto primitivo (Robert Shaw) em luta contra uma espécie de Moby Dick moderno. O filme não tem nenhum sinal de envelhecimento.
Atos de Amor -Não custa repetir: Bruno é o Barreto que deu certo, o que tem talento. O tempo deve mostrar em breve que o episódio Quatrilho vai ao Oscar não passou de acidente de percurso. A prova da competência de Bruno é este Atos de Amor, um filme sólido, adulto, inteiro. Baseado no romance Farmer, de Jim Harrison, é a história de um casal (Dennis Hopper e Amy Irving, mulher de Bruno) de amantes nos confins do meio rural americano. A vida morna dos dois esquenta com a chegada de uma fogosa e carnal pós-adolescente (Amy Locane). A relação aparentemente estável não será mais a mesma. A referencia toda especial é para o trabalho minucioso de Dennis Hopper, aparentemente avesso ao tipo de personagem humano, frágil e sincero. Um belo filme.
Beleza Roubada -Nesta volta ao lar, Bernardo Bertolucci reencontra seu melhor espírito, sua batuta esquecida nos escritórios de Hollywood. Na Toscana natal, o cineasta constrói um mundo de nostalgia e esperança, um romance delicado sobre achados e perdidos. Liv Tyler é a adolescente americana que vai à Itália em busca do primeiro amor e de uma peça familiar que falta em sua breve história. Na vila onde moram os remanescentes de uma geração boêmia, a ingênua Lucy-Liv reencontra pessoas e conhece novas. Anota tudo em seu diário. O filme é belo e sensual, tem locações esplêndidas e um elenco muito homogêneo. Liv Tyler foi a grande sensação em Cannes-96, e não merece ter a beleza roubada pela moldura três por quatro da tevê. Para reparar esta falha grave, o Cine Ouro Verde está exibindo Beleza Roubada em Londrina.
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