De todas as funções que o humor pode desempenhar em uma novela, parece que a última que é levada em consideração é a de fazer o telespectador rir. Usadas de maneira estratégica, pitadas cômicas se revelam excelentes maneiras de se atenuar situações mais densas em uma trama ou tirar o ar didático de produções voltadas para públicos específicos, como os adolescentes. ''Malhação'', por exemplo, alterna momentos de leveza com os dilemas enfrentados pelos alunos do Múltipla Escolha. ''Chamas da Vida'' reveza as tomadas de ação e com temáticas adultas com a interpretação hilária de atores como Íris Bruzzi. E histórias que ainda não estão no ar, como ''Três Irmãs'', já preparam a veia histriônica de alguns artistas para humanizar e suavizar as vilanias de seus personagens. ''Não dá para deixar um clima pesado em uma novela que vai ser exibida entre dois telejornais'', explica Antônio Calmon, que escreve a próxima novela das 19h da Globo.
Patrícia Moretzsohn não tem tantos vilões assim na novelinha adolescente ''Malhação''. Mas sabe que é preciso ''jogo de cintura'' ao transmitir certos valores aos jovens sem cair na chatice. Por isso mesmo, aproveita o formato de histórias semanais do folhetim para aumentar ou diminuir as ''tiradas'' de cada personagem. Assim, consegue perceber claramente qual deles funciona em cada tipo de situação. ''É uma linha tênue, porque o humor ajuda a dar leveza a temas mais pesados. Mas, quando exagerado, parece levar assuntos sérios na 'galhofa''', reflete, completando que qualquer novela precisa de humor. Miguel Falabella, que escreve ''Negócio da China'', a próxima trama das 18h da Globo, concorda. ''No Brasil, prestam atenção na comédia. Mas talvez ainda não entendam que ela é tão importante quanto o drama e que nem todo mundo tem esse dom'', pontua.
Apesar de considerar o humor fundamental nas novelas, Cristianne Fridman não concorda com Patrícia. A autora, que escreve ''Chamas da Vida'' e aborda temas adultos como pedofilia e consumo de drogas sintéticas, não teme um ar didático para sua história. Primeiro, porque se apóia em um casal de protagonistas aventureiro e ágil. E, segundo, porque, para ela, o que determina isso é a forma de escrever de cada um. ''Não trabalho com a regra de que situações densas são amenizadas com pitadas cômicas. As pessoas têm seus humores e meus personagens, idem'', resume.
Marcílio Moraes faz coro com Cristianne, mas confessa que o mais difícil na hora de inserir núcleos ou personagens cômicos em uma história é fugir da artificialidade. Em ''Vidas Opostas'', que escreveu para a Record, o autor decidiu amenizar o ar violento dos traficantes do morro do Torto com o talento para o humor de alguns nomes do elenco. E deu certo. Tanto que os bandidos roubaram a cena e agradaram mais do que a trama central, do casal insosso de mocinho formado por Miguel e Joana, de Léo Rosa e Maitê Piragibe. ''Mais do que fazer a trama respirar, esse tipo de detalhe humaniza os personagens. A própria vida sempre nos oferece o cômico junto com o trágico'', justifica.
Fugir de personagens ''coitadinhos'' e dignos de pena é outro benefício que uma boa dose de humor pode dar para um autor. Ricardo Linhares mesmo que o diga. Para ele, Bebel, personagem de Camila Pitanga em ''Paraíso Tropical'', não teria tanto sucesso sem seu jeito positivo e divertido de encarar os problemas. ''Isso gera identificação com o público'', garante. Mas Ricardo é taxativo na hora de alertar para problemas que a má utilização de núcleos inteiros de humor pode trazer se deslocados dos personagens centrais. ''Não funciona se ficar isolado, como uma novela à parte. Tem de ter ligação com o todo, principalmente com tramas de peso'', afirma. ''É difícil para um autor contar apenas uma história. Ele tem de contar mil histórias interligadas'', completa Jorge Fernando, que dirigiu ''Sete Pecados'', na Globo.
Fora do sério
Muitas vezes, o humor disfarça críticas de quem idealiza a história a determinadas situações ou posturas adotadas pelo governo. Em 1990, Lauro César Muniz, Ferreira Gullar e Dias Gomes escreveram ''Araponga'' para o horário das 21h30, que possibilitava abordar determinadas questões que a faixa das 20h30 não permitia. E aproveitaram para, com o investigador atrapalhado que dava nome à trama, interpretado por Tarcísio Meira, ridicularizar a ditadura militar. ''Era o nosso momento de desabafo, quando a abertura política timidamente acenava para a livre expressão do pensamento'', lembra Lauro, com orgulho e certo saudosismo.
Marcílio Moraes também se mostra adepto da célebre expressão ''Ridendo Castigat Mores'' - em português, ''rindo se corrigem os costumes''. ''Criticar, apontar o ridículo da presunção humana, esta é a maior função do cômico na dramaturgia'', filosofa. Ana Maria Moretzsohn, que escreveu recentemente ''Luz do Sol'', na Record, concorda e arrisca dizer ainda que o humor, se bem feito, é capaz de reforçar os momentos dramáticos. ''Histórias assumidamente escrachadas precisam de questões mais densas. Assim como tramas mais pesadas perdem força quando não vêm acompanhadas de um núcleo mais leve, que equilibre a novela'', palpita.

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