Os intelectuais de carteirinha podem até torcer o nariz, mas, depois do futebol, uma das grandes paixões dos brasileiros é, após um dia estafante, relaxar assistindo a telenovelas. O mito de que somente as donas de casas acompanhavam as tramas novelísticas há muito foi quebrado e um fato interessante é que cada vez mais os homens se rendem à suposta narrativa de linguagem fácil, que tem em média de 50 a 100 personagens por novela, e que quase consegue parar um país para saber ''Quem matou Odete Roitman?'', na empolgante novela ''Vale Tudo'' (de 1988, e reprisada em 1992).
Desde 1963, quando estreou ''2-5499 Ocupado'', a primeira novela diária da TV, já foram produzidas mais de 400 tramas no país, cada uma com uma média de 200 capítulos. Em todo o planeta, cerca de 2 bilhões de pessoas têm o costume de sentar para assistir a novelas. Na Índia, por exemplo, as novelas chegam a durar três anos.
Um bom exemplo de ''homem noveleiro'' é o funcionário público da Prefeitura de Londrina, Elias Marçal, 63 anos. Casado, pai de três filhos, um dos seus maiores prazeres é chegar em casa e acompanhar as três novelas globais da noite. ''De vez em quando, sigo a de outros canais também, mas a gente se acostuma com o padrão global de qualidade, e acaba se cansando dos outros formatos'', contou.
Apaixonado por novelas de época, ainda lembra do dia em que o pai comprou a primeira televisão da família. Aos 12 anos, passou a integrar o primeiro grupo de teatro formado em Londrina o GPT , dirigido por Roberto Koln, e participou do primeiro teatro realizado após a inauguração da Concha Acústica, com a peça natalina ''O boi e o burro a caminho de Belém''. Não demorou para que passasse a fazer esquetes humorísticas na TV Coroados, sob o comando de Antônio Euclides Sapia, e a participar do tele-teatro ''Dona Jandira em Busca da Felicidade'', que contava uma história diferente em cada programa. O programa contava com a participação do casal Paulo Goulart e Nicete Bruno hoje artistas famosos dos teatros e das novelas da TV Globo, que vinham todas as sextas-feiras a Londrina para apresentar ao vivo o programa, sendo que chegaram a residir na cidade durante algum tempo.
Palpiteiro, Marçal contou que é daqueles que gosta de discutir sobre o andamento do personagem, fica irritado com a maldade dos vilões (atualmente a Leona personagem vivida por Carolina Dickman, na novela ''Cobras & Lagartos'' é quem mais vem desgastando as emoções do fiel espectador de novelas).
Das novelas preferidas, lembra de ''Ossos do Barão'', na primeira versão, e ''O Casarão'', ambas de época. Mas também tece elogios à atual novela das oito, ''Belíssima'', analisando em detalhes o ''banho de interpretação'' de alguns dos atores, como Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Irene Ravache, Tony Ramos e Glória Pires.
Sobre o fato de gostar muito de novelas, contradizendo a idéia de que somente as mulheres têm esse tipo de preferência, Marçal disse que não tem problemas em assumir isso publicamente. ''Não tenho vergonha nenhuma em dizer que gosto de novelas. Acho que quem é contra as novelas são os 'pseudointelectuais' de Londrina. Eu não sou intelectual, sou normal'', ressaltou.
Questionado se gosta de se informar sobre o desenrolar das tramas, com antecedência, em resumos publicados em jornais ou em revistas do gênero, Marçal foi taxativo: ''Não gosto desse tipo de coisa. O que eu gosto mesmo é do fator surpresa, mesmo que ele seja decepcionante e sou daqueles que se emocionam quando assisto à uma cena mais forte'', disse, com convicção, o noveleiro que costuma assistir aos folhetins televisionados normalmente acompanhado da mulher Aniram, 65 anos, que trabalha como secretária da Secretaria de Ação Social e o netinho Leo.
Outro fã de novela é o jornalista 'Sinhozinho Malta', 31 anos que pediu para não ser identificado e sugeriu como nome fictício um dos principais personagens da novela ''Roque Santeiro''. ''Sempre gostei, desde criança, e não foi por influência da família'', adiantou.
Na opinião do jornalista, as novelas são um retrato do tempo em que a sociedade está inserida, refletindo costumes, linguagens e problemas da atualidade, como Aids, homosexualismo, eutanásia, entre outros. Um dos seus autores preferidos é Manoel Carlos. ''Gosto porque nas tramas que ele cria não há uma distinção muito clara entre o mocinho e o vilão. Ele relativiza. Também curto os diálogos. São bem escritos, muito próximos ao natural, não tem artificialismo'', comentou.
Outro ator de sua preferência é Dias Gomes, autor de ''Roque Santeiro'', que conseguiu criar uma 'miniatura' do Brasil, popularizando com maestria temas políticos com humor. ''Tinha um pouco de tudo. Corrupção, luta por poder, conflitos de ética, sincretismo religioso e até um padre progressista, vivido por Cláudio Cavalcante'', lembrou.
Elementos utilizados a partir da literatura nas novelas também não passam despercebidos pelo jornalista ''noveleiro''. ''Um bom exemplo é a 'Saramandaia', repleta de referências de realismo fantástico'', abordou.
Ele concorda com o rótulo de ''entretenimento'' que as novelas recebem, mas pondera, que no caso das novelas brasileiras, existe uma pretensão maior de criar um debate na sociedade, além de uma sofisticação de texto aliada a um bom acabamento de imagem. ''Quem não assiste a novelas está perdendo uma boa divulgação da nossa cultura. Tem gente que acha que o Brasil é 'Jeca'..., eu já acho que se pode conhecer muito mais do Brasil através das novelas'', opinou.
Sobre o fato das novelas brasileiras ganharem cada vez mais espaço no exterior, 'Sinhozinho Malta' atribui isso mais à qualidade visual do produto do que uma identificação legítima com a trama ou os personagens. ''É diferente do nosso olhar de brasileiro. Quem não conhece pelo menos umas quatro pessoas como o personagem 'Foguinho' (vivido pelo ator Lázaro Ramos, na novela ''Cobras & Lagartos'')?'', questionou.
Assim como Marçal, o jornalista afirmou não ter vergonha em assumir que gosta de assistir a novelas, mas salientou o preconceito que existe sobre o assunto, principalmente em meios mais intelectualizados. ''Se expressar esse tipo de gosto, a pessoa pode correr o risco de ser tratada com ironia e ser rechaçada. É puro preconceito e incapacidade de curtir esse tipo de emoção'', concluiu.

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