Italo Calvino não era o tipo de escritor que escrevia com pedras nas mãos. Ao contrário, escrevia com algodão entre os dedos. Se por acaso o vento levasse alguns dos flocos, ele interrompia a escrita e ia buscá-los. Como tinha o costume de escrever em dias de ventania, entre uma palavra e outra andava em busca dos flocos perdidos e assim tinha tempo para pensar sobre a leveza das histórias.
Tudo indica que a literatura de Italo Calvino não envelhecerá tão cedo. Suas qualidades lembram uma fonte de água na serra. Como exemplo, vale citar o fato de que, durante o Festival Internacional de Londrina de 2000, duas companhias européias apresentaram espetáculos inspirados em sua obra.
No Brasil, o escritor italiano começou ser publicado de maneira mais incisiva somente na última década. Nesse período, a Companhia das Letras colocou nas livrarias 16 títulos de Italo Calvino (1923-1985), entre eles suas mais significativas obras como ‘‘O Barão nas Árvores’’, ‘‘Cidades Invisíveis’’, ‘‘O Visconde Partido ao Meio’’, ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’, ‘‘O Cavaleiro Inexistente’’, ‘‘As Cosmicômicas’’ e ‘‘Seis Propostas Para o Próximo Milênio’’.
Quando morreu, em 1985, Italo Calvino trabalhava na edição de suas narrativas autobiográficas. Não conseguiu concluir a organização do livro a tempo e a tarefa ficou nas mãos de sua esposa, Ester Calvino. Publicado originalmente em 1990 na Itália, a obra recebe agora sua edição brasileira pela Editora Companhia das Letras.
‘‘O Caminho de San Giovanni’’ reúne cinco narrativas escritas entre 1962 e 1977. Na própria definição do autor, são ‘‘exercícios de memória’’. Apresentam lembranças da infância e juventude misturadas com reflexões e divagações da idade adulta.
Das cinco narrativas, três merecem destaques – ‘‘O Caminho de San Giovanni’’, ‘‘Autobiografia de um Espectador’’ e ‘‘La Poubelle Agréée’’. Em ‘‘O Caminho de San Giovanni’’, texto que dá título ao livro, Calvino escreve sobre as lembranças de infância quando morava com a família numa casa entre o campo e a cidade. Seus pais tentavam empurrá-lo para o mundo rural; ele, por outro lado, caminhava para o mundo urbano.
Retomando sua infância, Calvino chega a uma conclusão que todos nós, de uma forma ou de outra, em algum momento da vida adulta, atinge: as coisas que nossos pais tentavam nos ensinar, que valorizavam de maneira calorosa e que nós, num mundo infantil ou juvenil, não dávamos nenhum valor, aparece como algo profundamente positivo na memória adulta. Aquilo que fazíamos como obrigação, e até com certo asco, décadas depois aparecem sob a forma de aprendizado.
No texto ‘‘Autobiografia de um Espectador’’, publicado originalmente em 1974 como prefácio de um livro de Federico Fellini, Calvino escreve sobre suas lembranças de infância do cinema. Costumava ir ao cinema praticamente todos os dias. Geralmente, fugia de casa e se refugiava na mágica escuridão cinematográfica.
Descreve, de maneira poética, as sensações que o cinema proporcionava em sua mente infantil. Fala, por exemplo, do contraste que sentia entre as duas dimensões temporais, dentro e fora do filme: ‘‘Havia entrado em plena luz do dia e lá fora encontrava a escuridão, as ruas iluminadas prolongando o preto-e-branco da tela. A escuridão amortecia um pouco a descontinuidade entre os dois mundos e um pouco a acentuava, pois marcava a passagem daquelas duas horas que eu não vivera, sorvido numa suspensão do tempo, ou na duração de uma vida imaginária, ou no salto para trás nos séculos. Uma emoção especial era descobrir naquele momento que os dias tinham se encurtado ou espichado: o sentido da passagem das estações (sempre branda no clima temperado do lugar em que vivia) só me alcançava de fato na saída do cinema. Quando chovia no filme, eu aguçava o ouvido para saber se lá fora também começava a chover, se uma tempestade me surpreendia por eu ter fugido de casa sem guarda-chuva: era o único momento em que, mesmo permanecendo mergulhado naquele outro mundo, lembrava-me do mundo de fora; e era um efeito angustiante. A chuva nos filmes ainda hoje desperta em mim aquele reflexo, uma sensação de angústia.’’
Em ‘‘La Poubelle Agréée’’ coloca em prática seu humor sutil, uma das característica de sua literatura. Começa com a seguinte frase: ‘‘Dos afazeres domésticos, o único que eu desempenho com alguma competência e satisfação é o de botar o lixo para fora’’. Nas 20 páginas seguintes, Calvino reflete e divaga sobre o lixo da cozinha, desde a criação do termo que designa lata de lixo na França, até investigações metafísicas sobre o lixo humano, as chamadas necessidade fisiológicas.
Do rotineiro ato de colocar o lixo na rua para a coleta dos lixeiros, o escritor parte para relações mais profundas afirmando que somos o que não jogamos fora: ‘‘Se isso é verdade, se jogar fora é a primeira condição indispensável para ser, porque somos o que não se joga fora, o primeiro ato fisiológico e mental é o de separar a parte de mim que fica da parte que tenho de deixar cair num além sem retorno.’’
Nas palavras de Calvino, colocar o lixo na rua é um tipo de funeral doméstico que nos lembra de nosso próprio funeral: ‘‘Essa representação diária da descida subterrânea, esse funeral doméstico e municipal do lixo, tem por finalidade primeira a de afastar o funeral da pessoa, de adiá-lo mesmo que seja um pouco só, confirmar-me que ainda, por mais um dia, fui produtor de escórias e não escória eu próprio.’’
•‘‘O Caminho de San Giovanni’’ de Italo Calvino, Editora Companhia das Letras, tradução de Roberta Bardi, 120 páginas, R$ 19,00.

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