Diva da canção
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domingo, 23 de dezembro de 2012
Marcos Roman<BR>Reportagem Local 
Em 50 anos de carreira e 71 de vida, Nana Caymmi se orgulha de nunca ter feito concessões artísticas para obter sucesso fácil. O rigor na escolha das músicas interpretadas pela cantora pode ser conferido na recém-lançada caixa "A Dama da Canção". O box produzido pela gravadora EMI Music reúne os primeiros 18 álbuns gravados pela intérprete, com direito a encartes, letras e artes gráficas originais.
Contemplando as quatro primeiras décadas da carreira de Nana, a caixa joga holofotes sobre diversas raridades. Estão presentes desde o registro da gravação de estreia da cantora ao lado do pai, Dorival, em 1960, cantando Acalanto, até o segundo CD de boleros, "Sangre de mi alma", gravado no ano 2000. "A Dama da Canção" traz ainda pérolas como os CDs "Mudança dos ventos", "Voz e suor" (de voz e piano, com César Camargo Mariano), "Bolero" e "A Noite do Meu Bem As Canções de Dolores Duran". Um dos destaques é uma coletânea em dois CDs reunindo 41 músicas gravadas por Nana em álbuns de outros artistas e projetos especiais.
A formação em canto lírico conferiu à artista interpretações densas e arrasadoras. Na caixa recém-lançada a voz de mezzo-soprano da intérprete se une a outros cantores em encontros memoráveis como os duetos com Milton Nascimento, Gilberto Gil e João Bosco, entre outros. Como bônus, o box traz um livreto com uma minibiografia e entrevistas com Nana sobre cada álbum.
Confira a seguir a entrevista concedida à FOLHA por telefone:
Como a senhora recebeu a notícia da caixa lançada pela Emi em sua homenagem?
Foi uma maravilha! Fiquei dois anos esperando por essa caixa, era uma "gravidez incubada". Eles já tinham feito uma outra caixa com uns três ou quatro discos meus, mas essa está mais completa. Ainda ficaram de fora algumas coisas, principalmente as gravações em família, mas não tem como contemplar tudo, são 50 anos de discos.
Existe um carinho mais especial por alguns dos álbuns relançados?
Uma coisa muito legal é o CD duplo com participações especiais, que eu nem sabia que eram tantas.
Sua assinatura é marca de qualidade, a senhora acha que tem todo o reconhecimento que merece?
Acho que sim e tudo foi trilhado gradativamente, como alguém que caminha pela praia e vai enchendo um balde de conchinhas. Sempre me pautei pela música boa, por aquilo que não vou ter vergonha de dizer que foi eu que fiz. Reconheço o mérito do autor, do compositor, e procuro captar a sensibilidade deles. É um trabalho em conjunto.
Sempre fui muito romântica e gostei de cantar com o sentimento, navegar no coração e na cabeça das pessoas. Acho que as pessoas entenderam o que fiz e o reconhecimento foi algo natural, nunca procurei o sucesso rápido, que passa rápido também.
Desde quando tem essa percepção?
Sempre tive noção da responsabilidade de cantar, pois já nasci uma estrela. Era a bonequinha do Dorival Caymmi. Tinha o peso de cantar bem pelo meu histórico familiar. Sempre levei a sério a crítica da família, que era machista e por incrível que pareça não me deu muito apoio para seguir carreira como cantora no começo. Foi o produtor dos discos do meu pai que acabou me ajudando a gravar e o Dori também me apoiou.
No ano passado a senhora foi protagonista do documentário Rio Sonata (dirigido pelo cineasta francês Georges Gachot). O que achou do resultado do trabalho?
Eu adorei, mas essa também é outra "gravidez incubada" (risos). Já era para o DVD ter ficado pronto faz tempo, agora parece que só em março de 2013. O Gachot ficou encantado quando me viu cantar e achei muito interessante ser homenageada por um francês. Mas foi meio complicado também. Os meus pais estavam doentes e ele queria registrar tudo. Não saía do meu pé (risos), mas o filme é lindo.
Maria Bethânia diz que a senhora é melhor cantora do Brasil, ao lado dela e da Gal Costa. A senhora concorda?
É difícil falar isso, até porque tem muita gente boa da geração posterior à nossa, como a Zizi (Possi), a Simone, a Alcione, minha paixão, a Beth Carvalho... e da minha geração há várias cantoras ávidas em descobrir novas canções. Na atualidade, adoro a Mônica Salmaso. Adoro o jeito dela cantar, não gosto de grito. Também gosto das baianas, que fazem uma boa música para dançar que as minhas netas adoram.
Ao longo dos anos seu belo timbre ganhou contornos mais densos. A impressão que a gente tem é de que a senhora tem domínio total sobre sua voz. Como a senhora cuida dela?
Cuido muito da minha voz e não acho que ela mudou com o avanço da idade. Acho que a minha voz é igual, o que muda é o jeito de interpretar uma canção. Em dias de show, faço uma espécie de retiro para me poupar. Não falo ao telefone, esvazio a minha cabeça de preocupações, faço crochê, palavras cruzadas, ouço o barulho do mar... Tento ficar relaxada para poder interpretar uma média de 25 personagens a cada show, que é o que considero que faço a cada canção. Não sou uma cantora simplesmente, sou uma intérprete e isso exige um grau de adrenalina e preparo maiores.
A Alice Caymmi (sobrinha de Nana) seria a sua sucessora natural? O que achou do CD de estreia dela?
Alice está fazendo outra coisa e está no caminho certo, e por isso essa história de sucessão não tem muito a ver. Antes ela imitava a tia, mas agora está trabalhando muito, estudando e achando o seu caminho. O timbre dela é mais forte que o meu, ela ainda vai suavizar a maneira de cantar, pois sua voz vai passar por mudanças por ela ser muito nova. Mas está no caminho certo e tem todo o meu apoio, como todos os outros da família que quiseram cantar.
Apesar de cantar os amores e desamores e da seriedade de seu trabalho, a senhora sempre surpreende os fãs com declarações bem-humoradas e inusitadas. O que lhe dá humor e o que a tira do sério?
Esperar não é o meu forte e não suporto trânsito, cidade grande, aeroportos... É a morte sair de casa para mim. Eu adoro ficar em Piquiri (Minas Gerais) onde passa um carro de vez em quando. Amo música, rede, pescar, ficar na piscina. Sou daquelas pessoas que acordam de bom humor, de bem com a vida, e isso vem do meu pai. Realmente não acho que tenho o direito de me queixar. Deus foi muito generoso comigo e nem sei se sou merecedora de tantas coisas. Minha passagem pela Terra foi muito bonita e sinto orgulho daquilo que conquistei, entre tapas e beijos, principalmente por ser de uma geração em que as mulheres só serviam para cuidar dos maridos e dos filhos.
Falou sério quando disse que pensa em se aposentar? Conseguiria viver sem cantar?
Sim, é verdade. E pretendo fazer isso após as comemorações sobre o centenário do meu pai, em 2014. Acho que já dei o que tinha que dar. Acho complicado ter que cumprir agenda, viajar. Não sei viver sem cantar, mas não preciso de público. Gosto de cantar em casa, de cantar com os pássaros da mangueira lá de casa, que às vezes resolvem brincar de competir comigo. Não vou deixar de estar disponível em ocasiões especiais, mas sem tantas obrigações. É uma questão de meta, de ser seletivo, como acho que acontece na vida de todo mundo.
(colaborou Ana Paula Nascimento)


