Curitiba O escritor carioca Ruy Castro não sabia que o livro ''Canto dos Malditos'' (Editora Rocco), do paranaense Austregésilo Carrano Bueno, tinha sido apreendido pela Justiça. Sequer conhecia a história que inspirou o filme internacionalmente premiado ''Bicho de Sete Cabeças'', dirigido por Laís Bodanzski. Mostrou indignação, no entanto, ao saber que o livro atravessa uma história semelhante a que a obra de sua autoria, ''Estrela Solitária - Um brasileiro chamado Garrincha'' (Companhia das Letras), está passando. A diferença é que os herdeiros do jogador ainda não conseguiram vitória.
Na semana passada, decisão judicial determinou que o livro ''Canto dos Malditos'', que está na terceira edição pela Rocco e já vendeu 13 mil exemplares nos últimos três anos, fosse retirado nas prateleiras. A medida foi tomada depois que a Justiça negou o recurso da editora e atendeu ação ajuizada em abril a pedido de Ilka Maria Guimarães Paolini e Luiz Cláudio Surugi Guimarães, herdeiros do médico Alô Guimarães, citado no livro. Os herdeiros alegam que trechos da obra ferem a imagem do médico, que já morreu.
A medida foi vista com ressalva por alguns escritores e provocou discussões sobre uma possível censura a que a decisão remete. Para Castro, por exemplo, tanto no caso de ''Estrela Solitária'' como no de ''Canto dos Malditos'', o pedido de apreensão, aparentemente, está longe de ser encarado como censura. Vai além. Para o autor carioca, a situação mostra que um novo mercado se articula no meio literário: o mercado dos herdeiros. ''Sob pretexto de proteger a imagem da pessoa citada, os herdeiros entram com ações, mas o interesse é o dinheiro'', afirma. ''Se você pagar o que eles exigem, a obra acaba sendo liberada''.
O processo movido contra a obra de Ruy Castro ainda se arrasta na Justiça. Para escrever o livro, que tem como cenário o Rio de Janeiro e o Brasil nas décadas de 50 e 60, Ruy Castro fez mais de 500 entrevistas com quase duzentos personagens, que de uma forma ou de outra tiveram ligação com Garrincha. Assim como ''Canto dos Malditos'', a obra de Castro vai se transformar em filme, com o ator André Gonçalves interpretando o jogador.
Quando o livro foi publicado, há dois anos, dois advogados representando os herdeiros do Garrincha entraram na Justiça pedindo o recolhimento da obra. O processo ainda não teve um desfecho, mas para Castro, a ação é ''circunstancial'' e está vinculada ao sucesso da obra. ''Da próxima vez que fizer uma biografia vou escolher uma pessoa órfã e estéril'', brinca o autor que prepara um livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro, a ser lançado no próximo ano pela Companhia das Letras e simultanemente por uma editoria inglesa.
O crítico literário e escritor paulista radicado em Curitiba Wilson Martins, que recentemente recebeu o Prêmio Machado de Assis (uma das maiores premiações literárias no Brasil), não encara a apreensão do livro de Carrano como censura. ''É um ato administrativo'', opina. Para ele, a exemplo do que aconteceu ao livro de Ruy Castro, a ação é civil, ''puramente pessoal'' e não tem interesse público.
Já para o advogado da editora Rocco, em Curitiba, Eduardo Virmmond, a medida pode, sim, ser encarada como censura. ''A decisão foi baseada na impressão de um desembargador, que achou o livro imoral. Isso abre um precedente perigoso para a liberdade de expressão'', afirma. Lembra ainda que a primeira edição do livro foi lançada pela editora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na década de 80. ''Instituição da qual o médico foi professor'', recordou. A editora ainda não foi informada oficialmente da decisão, mas o advogado já adianta que a empresa tem intenção de recorrer.
A assessoria da editora Rocco, no Rio de Janeiro, informou que ''Canto dos Malditos'' já teve seis edições pela editora Lemos, antes de ser lançado pela Rocco. De acordo com a assessoria, as atuais edições passaram por revisões e cortes com o objetivo de retirar os termos ofensivos.
''Canto dos Malditos'' é uma narrativa autobiográfica, na qual Carrano conta a sua experiência em um hospital psiquiátrico. Ele foi internado na década de 70, no Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, em Curitiba, depois que o pai dele encontrou um cigarro de maconha em suas coisas. De acordo com o que o autor conta no livro, ele foi submetido a um tratamento subumano, com direito a isolamento e eletrochoques. Na época que o autor foi internado, o médico Alô Guimarães era diretor do hospital.
Ao receber a confirmação da apreensão do livro, Carrano fez um protesto em frente ao Hospital Bom Retiro, se acorrentando a um dos portões de entrada. Ficou durante quase doze horas e recebeu apoio de estudantes. Ele já havia feito um protesto em frente ao Tribunal de Justiça simulando estar numa camisa-de-força, quando a decisão foi julgada pela primeira vez, antes da editora recorrer.
Agora, não adianta protesto. A medida judicial vale até que a ação seja julgada em primeiro grau, ainda sem data definida. Nesse caso, conforme informou a editora, nem mesmo a empresa tem acesso aos livros, que ficam lacrados no depósito. Qualquer semelhança com a ditadura terá sido mera coincidência.

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