Distribuidores rejeitam livros por preconceito
A Edições GLS estreou na Bienal com uma proposta diferente: atender um nicho de mercado que ainda não começou a ser explorado no Brasil, o dos homossexuais. Fundada em janeiro de 97, a GLS publicou seus seis primeiros títulos em março deste ano e, até o final do ano, deve pôr no mercado muito mais. Segundo a editora, Laura Bacellar, suas publicações vêm cobrir uma lacuna no mercado editorial brasileiro. ‘‘No Brasil, não há livros que tratem do assunto de uma forma isenta e sem preconceitos’’ - afirma.
A idéia de montar uma editora especializada surgiu há alguns anos, motivada pela comparação entre as publicações brasileiras e o mercado internacional. ‘‘Nós estamos em descompasso com o resto do mundo. Nos Estados Unidos há cerca de 100 editoras, pequenas e médias, especializadas no assunto. E todas as grandes editoras têm, pelo menos, um selo voltado para o segmento. Ninguém ignora a homossexualidade mesmo que não seja gay’’ - afirma.
Formada em editoração e trabalhando na área há vários anos - foi editora chefe da Braziliense - Laura uniu sua experiência ao fato de ser assumidamente lésbica para montar um projeto de editoração. ‘‘Esta é uma junção peculiar. Os homossexuais que publicaram livros antes o fizeram apenas de forma esporádica e sem profissionalismo. As editoras que o fizeram, por seu lado, não tinham a consultoria de um homossexual e trataram o tema de forma superficial. Assim, uni as duas coisas’’ - explica.
Para seu projeto ir em frente, Laura só precisava de um parceiro para a área de comercialização. Depois de oferecer em algumas editoras e enfrentar preconceitos, fez parceria com a Summus, que faz toda a parte comercial. ‘‘A Summus cuida da colocação no mercado. Nós fazemos toda a editoração, sem nenhum tipo de interferência’’ - diz.
Apesar de estar há apenas dois meses no mercado, a editora vem sentindo que vai ter sérias dificuldades para colocar seus títulos em livrarias. ‘‘O mercado é ainda bastante preconceituoso, principalmente distribuidores que demoram a incorporar a idéia de nichos de mercado. Os livreiros mostram o maior interesse, porém os distribuidores nem os consultam antes de rejeitar nossos títulos. Muitos livreiros estão entrando em contato diretamente conosco, para driblar este preconceito’’ - afirma.
Para ela, isto é uma ‘‘tremenda burrice’’. ‘‘Calcula-se que 10% da população é homossexual. E nosso público-alvo é formado, na maior parte, por pessoas de alto poder aquisitivo, um público AA, com bom padrão cultural’’ - garante. O cuidado com a produção gráfica dos livros da GLS reflete a busca por qualidade para atender a este público. Por isto, Laura segue critérios definidos para publicação. O primeiro e principal é de serem ‘‘positivos’’, com informações livres de preconceitos e esteriótipos - ‘‘e que não mostrem os homossexuais como pecadores’’ - diz. O segundo leva em conta o que o brasileiro sabe e o que não sabe sobre homossexualidade. ‘‘No momento, eu tenho que procurar títulos que tragam informações básicas’’ - afirma.(T.E.)

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