'Distribua você o seu filme'


Na entrevista que concedeu à FOLHA logo após a oficina realizada no final de semana, Andrea Tonacci sugere aos diretores de filmes independentes que distribuam os próprios filmes. ''Serras da Desordem'', seu longa mais recente, reconta a história de Carapirú utilizando os próprios personagens que viveram a história como atores. Os índios apresentados no filme, porém, distante do imaginário popular, não vivem em um paraíso, mas em um lugar repleto de pobreza e abandono.

O primeiro contato do cineasta com a temática indígena aconteceu ainda nos anos 1970, década em que produziu o longa ''Conversas no Maranhão'' (1977), apontado pela Enciclopédia do Cinema Brasileiro como um dos pontos altos do cinema documentário no País. Foi em uma floresta recém-derrubada que conheceu, como relata na entrevista abaixo, o ''cheiro da morte''.

''Bang-bang'' (1970), seu primeiro longa de ficção, foi um marco que deixou rastros na carreira de Tonacci. O filme, que tem uma linguagem radical e no qual o personagem interpretado por Paulo César Pereio utiliza uma máscara do longa ''O Planeta dos Macacos'' (1968), foi apontado por Jairo Ferreira, no livro ''Cinema de Invenção'', como tão meritório de estudos quanto ''Terra em Transe'' (1967), de Glauber Rocha, e ''O Bandido da Luz Vermelha'' (1968), de Rogério Sganzerla. Quanto à palavra ''marginal'', tão atribuída a ele e a muitos de sua geração, como os amigos Sganzerla e Júlio Bressane, Tonacci é categórico: '''Marginal' não; marginalizado''.

Você é sempre citado como alguém que fez um filme, ''Bang-bang'' (1970), e, depois, ficou sem filmar até ''Serras da Desordem'' (2006), o que não me parece ter sido o caso.
Trabalhei, sem parar, o tempo todo. O que aconteceu é que o ''Bang-bang'' me marcou com um ''pô, o cara é um doido. Como é que vamos dar dinheiro para um maluco fazer filmes?''. Teve um projeto chamado ''Agora nunca mais'', que tentei por dez anos aprovar em concursos, mas não consegui um tostão. Eu fiz esses longas - ''Conversas no Maranhão'' (1977), ''Interprete mais, ganhe mais'' (1995) -, mas eles não chegaram aos cinemas e à televisão.


Durante o curso você comentou que não foi uma boa experiência deixar o filme nas mãos de uma distribuidora.
É um filme tão pequeno que, se não for cuidado pessoalmente, cai em um sistema de distribuição. A renda é tão mínima que estava custando muito caro daquela forma. Agora, eu sou o meu próprio distribuidor e acredito que essa é melhor forma para esses filmes mais pessoais, mais independentes. Distribua você mesmo o seu filme. Claro, quem tem 500 cópias precisa de uma empresa muito grande. Mas eu tenho quatro e dá para eu cuidar disso. E você sabe como funciona: 50% fica com o exibidor, 25% com o distribuidor e os outros 25% com o produtor.


Você falou que a cena final do Carapirú, personagem do filme, era sua também e que ele era uma espécie de seu alter-ego.
O fato de ele tirar o calção, se libertar da roupa e voltar para a floresta é uma coisa minha. É criação de ficção. Um pouco a minha reação ao mundo que eu não suporto e que me dá vontade de dizer ''até logo, vou viver a minha vida à minha maneira, mais livre e independente.'' O Carapirú representa um pouco o Andrea e a sua insatisfação em relação ao mundo em que vive. E, como ''ator'', o seu desagrado em relação à sua aldeia e quando retorna não é mais aquele povo lindo na floresta que a gente idealiza como paraíso, mas aquela coisa sofrida, suja, empobrecida, maltratada, desrespeitada.


Uma das coisas que o cinema te permitiu foi chegar no meio de uma floresta e ver aquilo que você batizou como ''cheiro da morte''.
Foi impressionante isso. Eu nunca havia estado no momento da destruição de uma floresta, quando a seiva ainda está correndo. Aconteceu no Pará. Falo de muitas árvores derrubadas ao mesmo tempo, por aquelas máquinas que têm grades em volta e vão derrubando o que estiver à frente delas. Aquilo é um cheiro muito forte, muito intenso. Provavelmente, é uma relação psicológica. Quando você vê tudo aquilo caído, dá uma idéia de morte e de destruição. (R.U.)

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