DISPUTADO OBJETO DE DESEJO
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de agosto de 2001
André Bernardo<BR>TV Press 
Todos os dias, o ator José Mayer se pergunta o que as mulheres tanto vêem nele. De estatura e físico medianos, este mineiro de 52 anos é o primeiro a admitir que não é nenhum Richard Gere e muito menos um Arnold Schwarzenegger. Mesmo assim, seu nome é sempre dos mais lembrados quando os autores buscam um galã de meia-idade para dar vida a tipos charmosos e sedutores. O arquiteto Fernando Reis, de Presença de Anita, é o mais recente deles. Para interpretá-lo, o ator adquiriu um visual mais urbano: adotou um corte de cabelo moderno e voltou a fumar depois de sete anos de sacrificante abstinência. Tenho mais charme do que beleza. Talvez seja isso que me humanize e me deixe ao alcance da fantasia de adolescentes e mulheres mais velhas, arrisca.
Na minissérie de Manoel Carlos, Fernando Reis vai se sentir dividido entre o amor da submissa Lúcia Helena e da maliciosa Anita, personagens de Helena Ranaldi e Mel Lisboa. O papel de homem maduro que cai de amores por uma ninfeta não é novidade para José Mayer. Ele já seduziu e se deixou seduzir por outras adolescentes, como Adriana Esteves em Meu Bem, Meu Mal, Malu Mader em Fera Radical e, mais recentemente, Deborah Secco em Laços de Família. O mito da Lolita é recorrente no imaginário sexual masculino. Que homem já não viveu esse dilema afetivo?, indaga o ex-professor de Literatura, com um sorrisinho maroto.
A julgar pela vida discreta que leva, José Mayer parece ser uma exceção à regra. Como bom mineiro, fala pouco sobre a vida pessoal. Mas jura fidelidade à atriz Vera Fajardo, companheira há 26 anos. Desta relação, nasceu Júlia, atualmente com 17. Quando não tem 20 páginas de capítulos para decorar, José Mayer gosta de reunir a família e se refugiar no sítio em Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. Lá, se entrega a prazeres frugais da vida, como praticar jardinagem, nadar no rio ou andar a cavalo. Não há fórmulas para casamentos perfeitos. Mas se há uma coisa que as mulheres gostam é de senso de humor, arrisca, novamente.
O autor Manoel Carlos disse que teria de adiar a minissérie se você não pudesse aceitar o convite. Por que você preferiu Presença de Anita a O Clone?
Escalação de elenco é sempre uma arte das mais difíceis. Mas confio plenamente na sagacidade de quem escala o elenco de uma novela ou minissérie. Quando sou indicado pelo próprio autor, me sinto plenamente à vontade para aceitar o convite. Afinal, essa indicação me confere a liberdade e a autoconfiança necessárias para fazer um bom trabalho. Além disso, julguei que o papel na minissérie condizia mais com o meu perfil que o da novela. Parece que não, mas todo processo de criação é sempre muito conturbado, repleto de dúvidas. Quando a escalação parte do autor, você já tem meio caminho andado. Compor um personagem é sempre trilhar um caminho tortuoso...
Qual foi o caminho tortuoso que você teve de percorrer até chegar ao Fernando Reis, de Presença de Anita?
Não precisei de muitos subsídios para compor este personagem. O texto do Manoel Carlos é tão bem-escrito e descrito que não deixa margem a dúvidas. O itinerário emocional dos personagens que ele cria é muito transparente. O Nando, por exemplo, é movido por uma profunda insatisfação. Tanto pessoal quanto profissional. Ele é arquiteto, pai de uma família muito bonita e alimenta o sonho de escrever um livro. Mas o casamento é morno e a profissão não apresenta maiores novidades. Quando ele conhece Anita, vê na menina mais do que uma simples aventura amorosa. Vê também o passaporte para uma vida melhor. A chance do salto. Para ele, Anita é mais do que sexo. É inspiração também. Só que ele não consegue administrar isso. Como escritor, ele tinha de ser mais racional e menos impulsivo. Mas não é isso o que acontece...
Depois de Laços de Família, você não ficou receoso de repetir a parceria com Helena Ranaldi?
Não. As diferenças entre os nossos personagens são abissais. Os telespectadores não vão encontrar dificuldades para distinguir o Nando do Pedro. Não tenho a menor dúvida quanto a isso. O Pedro era um homem configurado. Começou e terminou a novela do mesmo jeito. Só sucumbiu ao amor da Íris no finalzinho. Já o Nando é um personagem em constante movimento. É casado com uma mulher extraordinária, muito interessante. A personagem da Helena é forte, generosa. Não é uma mulher que poderia ser facilmente trocada por uma ninfeta. O Nando tem uma família muito bonita. Tanto que ele não quer abandonar esse porto seguro. Em contrapartida, ele sente necessidades de alçar velas e navegar por outros mares.
Como está sendo a experiência de contracenar com uma atriz inexperiente como a Mel Lisboa?
Uma incógnita. Afinal, não tenho qualquer referência dela. Mas o ineditismo da atriz é um ponto a favor da minissérie. A falta de comparações na cabeça do telespectador vai enriquecer a história. O que se espera da Anita é justamente isso: um certo frescor diante da vida. Uma certa falta de expectativas. Não sabemos o que esperar dela. E é isso que a Mel Lisboa tem a oferecer. A figura dela inspira inexperiência. O que mais me surpreende é que existe um grande descompasso entre o que a figura de Anita inspira e o que ela vem a realizar no decorrer da trama. Isso torna a personagem absolutamente desconcertante.
A trama de Presença de Anita, de Mário Donato, é muito parecida com a de Lolita, de Vladimir Nabokov. A que você atribui o sucesso deste mote literário?
O homem maduro que se envolve com uma mulher bem mais nova é um clichê da história sexual masculina. É a eterna busca da juventude. Uma busca ilusória, diga-se de passagem. A sexualidade pode amadurecer e continuar boa. Acontece que os homens têm profundo pânico de mulheres mais experientes porque temem ser comparados a quem quer que seja. O mito da Lolita é um tema recorrente, corriqueiro, na vida das pessoas. Quase um fetiche sexual.
Você já viveu alguma situação parecida?
Que homem já não viveu essa divisão afetiva? O ser humano encara esse dilema permanentemente. Não se conforma com o que tem. Somos insaciáveis por natureza. A minha experiência amorosa também teve gradações de idade. Mas acho a mulher sempre um poço profundo de mistério, independente da idade que tiver. Vivo com a Vera há 26 anos. Metade da minha vida passei ao lado dela. Nosso casamento é baseado em um respeito muito grande pela individualidade do outro. Partilhamos a vida, mas temos áreas de respiração, onde exercemos nosso lado individual. Acho saudável, por exemplo, não estar profissionalmente ligado a ela. Temos a capacidade mútua de reinventar a mesmice nossa de cada dia.
Você se considera tão sedutor quanto os personagens que interpreta na tevê?
Uma das maiores virtudes femininas é a capacidade de enxergar beleza onde parece não existir nenhuma. A mulher tem olhos que perscrutam belezas quase subjetivas. Se eu tiver alguma beleza interior, fico honradíssimo. Agora, tenho de confessar que gostaria de ser diferente fisicamente. Gostaria de ser menos tosco, rude. Estou me sutilizando aos poucos. No entanto, não vejo motivos para mudar. Pelo jeito, a coisa está funcionando bem...
Para fazer Presença de Anita, você teve de recusar o convite de Glória Perez para fazer O Clone. Já aconteceu de você se arrepender de ter aceito determinado papel?
Tenho tido sorte nos últimos anos. O meu primeiro critério de seleção é sempre intuitivo. Faço uma leitura da sinopse. Se houver um impacto qualquer, é porque o texto me interessa. Caso contrário, paro por ali mesmo. Se eu me interessei pelo projeto, passo a avaliar mais demoradamente se aquele papel realmente me convém. Avalio, por exemplo, se há uma alternância em relação ao trabalho anterior e assim por diante. De uns tempos para cá, tenho sentido o tal impacto nos convites que recebi. Estou vivendo uma excelente fase profissional onde as propostas que recebo são sempre muito boas. Não tenho sido convidado para fazer personagens desinteressantes. Nem obrigado a engolir sapos artísticos.
Mas você já engoliu muitos sapos artísticos nestes 20 anos de carreira na tevê?
Já. Todo ator passa por isso. Principalmente em início da carreira. Nem sempre as oportunidades que surgem são as mais inspiradoras. Aí, você tem de se superar, acrescentar o que puder ao personagem e seguir adiante. Quando a dramaturgia é desossada e sem muita consistência, o ator tem de ajustar o texto e torná-lo um pouco mais verossímil aos olhos do público. Quando o texto é bom, ele obriga o ator a se tornar melhor intérprete. A dramaturgia do Maneco, por exemplo, é rica em indicações e trilhas. É um mapa seguro que torna o trabalho ainda mais consistente. O ator não precisa ficar inventando nada. É aí que o telespectador viaja, se identifica.


