Tecnologia contra a tecnologia. A guerra contra a pirataria de CDs não se limita mais à apreensão de cópias falsificadas, fechamento de fábricas clandestinas ou à habitual choradeira. É travada agora no campo dos softwares. O Brasil inaugura esta semana a nova etapa do combate com o lançamento do CD ‘‘Equalizando as Idéias’’ (EMI), da banda cearense O Surto, o primeiro a trazer um dispositivo anti-pirataria no país.
O disco inclui uma faixa-bônus, ‘‘Veneno’’ (em versão acústica), que só pode ser ouvida pelo legítimo comprador através de uma senha eletrônica. Para acessá-la, é preciso estar conectado à Internet em um computador com CD player utilizando um código impresso no encarte. O sistema foi desenvolvido pela empresa iMusica em parceria com a gravadora EMI.
‘‘Uma vez aberta a embalagem e ativado o código único, a faixa exclusiva fica protegida de outros acessos, mesmo que o CD seja copiado ou emprestado, pois cada código é válido para apenas uma operação de licenciamento’’ – explica Cláudio Campos, executivo da iMúsica, a pioneira na tecnologia de proteção de direitos on line na América Latina.
Segundo ele, não se trata de uma solução definitiva contra o mercado ilegal de CDs, mas uma forma de atacá-lo com outras armas. ‘‘A idéia é acrescentar vantagens para quem compra o CD original oferecendo-lhe brindes, links e faixas interativas. O princípio é adicionar extras ao produto apresentando um diferencial em relação às cópias piratas’’ – completa.
No camelódromo, centro de vendas de CDs clandestinos em Londrina, os comerciantes ainda desconhecem o disco da banda O Surto. Ao serem informados da novidade anti-pirataria embutida no CD, deram de ombros. ‘‘Surto? A gente não comercializa CDs de artistas desconhecidos, porque eles não vendem. O nosso negócio é trabalhar com nomes populares como Roberto Carlos, Sandy e Júnior e Bruno e Marrone’’ – diziam ontem de manhã dois donos de barracas, que preferiram não se identificar.
Nos Estados Unidos, os pesos pesados da indústria fonográfica já adotam mecanismos de proteção em discos de artistas de renome e até em campeões de vendas. Foi o que fez a poderosa Universal com a trilha sonora do filme ‘‘The Fast and the Furious’’. Foi o que fez a BMG no ano passado com os álbuns de Natalie Imbruglia e Five.
Foi o que a Sony experimentou em ‘‘A New Day Has Come’’, o novo CD de Celine Dion. Experimentou literalmente, porque o sistema anti-cópia utilizado no álbum-cobaia da cantora canadense tem gerado insatisfação e irritado muitos consumidores. O motivo é que o disco traz o mecanismo Key2Audio, que não permite que ele seja tocado em drives de computadores.
Um aviso na capa do CD alerta para o fato de que ele não tocará em PCs e Macintoshes, mas não informa que o equipamento será danificado e que o disco vai ficar preso no drive. O fiasco está sendo justificado como um efeito colateral da tecnologia empregada até agora, que embaralha o sinal digital de forma que alguns aparelhos, simplesmente, não conseguem tocar os discos.
Por enquanto, o CD anticópia de Celine Dion só pode ser encontrado nas prateleiras do mercado europeu, onde alguns usuários pretendem processar a gravadora Epic/Sony. No EUA e no Brasil, o disco chegou às lojas sem proteção. Os adeptos da pirataria se divertem com a história, apesar de saberem que não terão boa vida daqui para frente.

mockup