São Paulo, 06 (AE) - Um teatro com cheiro de novo, pequeno e acolhedor. Uma peça igualmente curta, tragicômica, protagonizada por jovens atores. O teatro é o recém-inaugurado N.Ex.T, Núcleo Experimental de Teatro, administrado por Celso Curi e Antonio Rocco com o objetivo de investir em novos talentos, com ênfase sobre a dramaturgia contemporânea brasileira. A peça é "Disk Ofensa Linha Vermelha", texto de Pedro Vicente, dirigido por Nilton Bicudo, com Mário Bortolotto, Luciene Adami e Regina França no elenco, que reestréia amanhã (07) inaugurando o horário alternativo no novo espaço.
Mário Bortolotto interpreta um dramaturgo fracassado casado com Mabel (Luciene), mulher ambiciosa que deseja explorar seu talento na criação de um serviço 0900, o disk ofensa do título. Sem outro objetivo a não ser ganhar dinheiro, ela imagina oferecer um canal para que as pessoas - provocadas ao ouvir a gravação de um texto ofensivo - vomitem suas frustrações
ódios e tensões acumuladas no dia-a-dia, um paliativo sem maiores consequências. As expectativas não se realizam e o autor dos textos parece estar destinado a outro solene fracasso, até o momento em que se depara com uma mendiga (Regina) da qual ouve, extasiado, uma profusão de ofensas viscerais. Tranca-a literalmente numa jaula em sua casa e passa a explorar a sua revolta. A verve da mulher para dizer impropérios transforma o serviço num grande sucesso e enriquece o casal. Tragédia telefônica - Tudo estaria perfeito não fossem os resquícios de escrúpulo do dramaturgo em ganhar dinheiro explorando, em ambos os lados da linha, a pobreza, a loucura e a miséria humanas. Além disso, dói nele reconhecer naquela mendiga um talento e uma verdade que ele não possui e, ainda, a total falta de escrúpulos da mulher que ama. "No fim, tudo termina numa tragédia telefônica", brinca Bicudo.
Bortolotto consegue entender os motivos que levaram o personagem a mercantilizar sua arte. "Ele passava por uma crise e, além disso, estava apaixonado por sua mulher", diz. Mas não o justifica. "Quem vende a alma ao Diabo sempre acha uma boa explicação para dormir em paz". Paz é tudo o que os personagens dessa peça não conseguem. Ao fim, o autor faz uma citação à peça "Macbeth", na cena em que Mabel tenta inutilmente tirar das mãos uma mancha de tinta de caneta, depois de assinar um contrato. "E eu que pensei pudesse ficar imune a tanto ódio concentrado", lamente Mabel. Serviço - "Disk Ofensa linha Vermelha" - Núcleo Experimental de Teatro, Rua Rego Freitas nº 454, centro - São Paulo. Até 31/08.

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