‘‘O Tchan não é só bunda. O Tchan é música. E com esse novo CD queremos mudar um pouco essa imagem.’’ É desta forma que Compadre Washington - vocalista do ‘‘É o Tchan’’ ao lado de Beto Jamaica - define a ‘‘nova fase’’ que o grupo pretende estabelecer daqui para frente, a partir do lançamento do CD ‘‘É o Tchan no Hava풒, este mês em todo Brasil. Ou seja: fazer com que o trabalho do grupo seja identificado pela qualidade musical - com raízes fincadas principalmente no samba de roda, segundo eles - e não somente pelos dotes físicos das dançarinas Scheila Carvalho e Sheila Mello (‘‘a nova loira do Tchan’’).
O show de lançamento do novo CD ocorreu no último domingo no Clube Espanhol, em Salvador, na Bahia, reunindo mais de 25 mil pessoas - com direito a repeteco, segunda-feira, no Metropolitan do Rio de Janeiro. Foi também a primeira vez que a paulistana Sheila Mello, recentemente escolhida para integrar o É o Tchan em concurso no programa do Faustão, da Rede Globo, se apresentou na capital baiana. Ela entrou no grupo substituindo Carla Perez. Além das estréias, durante o show ainda houve a entrega do ‘‘Disco de Diamante’’ aos integrantes da banda pela tiragem inicial de um milhão de cópias do ‘‘É o Tchan no Hava풒.
Compadre Washington - que falou à imprensa à tarde, ao lado das dançarinas, no Clube Espanhol - afirma que com a nova fase o grupo não quer renegar a sensualidade, até agora principal arma para manter o Tchan na mídia. Mas somente afastar a imagem de uma banda que depende basicamente das roupas curtas e apertadas das dançarinas. ‘‘Modificamos porque as pessoas estavam deturpando, a imprensa estava dizendo que a nossa música tinha duplo sentido, e a nossa proposta nunca foi essa’’, disse. ‘‘As bailarinas, na verdade, fazem parte de um contexto, não são o principal.’’
Com pelo menos 10 anos de estrada - desde a época do Gerasamba, que antecedeu e gerou o É o Tchan - cincos discos e mais de 10 milhões de cópias vendidas, Compadre Washington defende que o sucesso não seria tão grande não fosse a musicalidade do grupo. Ele argumenta: o Tchan já lançou fitas de vídeo, com gravações de shows, que venderam infinitamente menos do que os CDs. ‘‘E CD é música, não é vídeo. Então as pessoas gostam da música.’’ Scheila Carvalho completa: ‘‘Claro que a bunda é apreciada no Brasil. Mas a associação (bunda com Tchan) foi da mídia, não foi nossa.’’
Compadre Washington não admite também que o sucesso do É o Tchan seja passageiro, como ocorreu com gêneros como a lambada ou grupos como o Menudo. Para ele, a grande diferença é que o Tchan está fincado em raízes tradicionais, como o samba de roda ou o samba de recôncavo, e que por isso sempre terá público cativo no Brasil. ‘‘Não some nunca. Pode subir e descer, mas não cai de moda’’, acredita.
Uma das estratégias para fugir da imagem até agora propagada é, sempre que possível, evitar takes de televisão que encham a tela com as partes mais íntimas (e apreciadas) das dançarinas. Outra medida, diz Compadre Washington, é um cuidado maior na composição das letras, substituindo expressões específicas da Bahia e que podem ter duplo significado em outras partes do País. Exemplo: a palavra ‘‘ordinária’’, que entre os baianos pode ser considerada um elogio, ainda que malicioso, é entendida como xingamento em muitos outros lugares do Brasil.
Pelo que se pôde ver em Salvador, no entanto, não será fácil fugir do estigma que acompanha o grupo desde 1996, com a ‘‘A Dança do Tchan’’. As coreografias de Edson Jacaré - também dançarino e um dos mais festejados pelo público baiano - não mudaram e nem vão passar por qualquer tipo de autocensura. ‘‘Nunca tive intenção de expor as meninas. A dança é apenas a interpretação da letra’’, garante Jacaré. Para reforçar, durante o show os telões não se cansavam de mostrar, em closes, as duas dançarinas ‘‘quebrando e requebrando’’, em roupas curtas e apertadas.
A ex-professora de dança e ex-recepcionista Sheila Mello, que à tarde, ao lado da mãe, declarou estar nervosa com a estréia em Salvador, também não se intimidou com a responsabilidade de substituir Carla Perez na terra do Tchan e deu um show à parte - para delírio dos milhares de baianos que pagaram R$ 12,00 e lotaram o Clube Espanhol. Em novembro, ela será capa da revista masculina Playboy, com fotos de J.R. Duran. As fotos foram tiradas no Havaí e o público de todo País pôde ver, também no domingo, detalhes da sessão no programa Fantástico, da Rede Globo. Queiram ou não, é mais um ingrediente que vai alimentar a fama do É o Tchan como grupo de forte apelo sexual.
O jornalista viajou a Salvador a convite da gravadora PolyGram.

mockup