São Paulo - O reggae é tão grande quanto o oceano. Precisamos dar uma chance ao amor. A Justiça irá chegar para os meus filhos. O discurso ''paz e amor'', que poderia ter saído da boca de um hippie há 30 anos, continua a fazer a cabeça de Ziggy Marley, 34 anos, filho e herdeiro da mesma filosofia do papa do reggae, Bob Marley (1945-81).
''Escrevi o que sentia naquele momento (há cerca de um ano), antes dessa guerra que está aí. O que eu gosto é que essas músicas são atemporais e trazem mensagens positivas'', disse Ziggy, em referência a seu novo rebento, ''Dragonfly'', décimo álbum de sua carreira rasta e primeiro sem a companhia dos irmãos Stephen, Cedelia e Sharon Marley, os Melody Makers.
''Ei, senhora abelha, o mundo mudou mas você continua a mesma/ e eu me pergunto como você sobrevive com o ambiente indo por água a baixo/ Ei, senhorita libélula, eu vejo você me olhando com seus bonitos olhos/ Você deve estar pensando que tipo de criatura sou eu / Um cachorro olhou para mim e disse / Ziggy, por que não podemos confiar nos homens? Se nos unirmos, por que não podemos nos entender?''
A simplicidade, de disco e discurso, parece não incomodar Ziggy. ''Só quero ser honesto com a música, não vou ficar colocando um nome, reggae, rock, deixo que a música se defina por si mesma''.
Fiel em partes à retórica do reggae e do clã Marley, ''Dragonfly'' acompanha sonoramente, no entanto, a trajetória solo de Ziggy em seus vôos frequentes pelo rock (''I Get Out''), pelos ritmos latinos (''Looking'') e por uma temática, embora geograficamente próxima do tal êxodo do povo de Jah, aparentemente inédita no campo do reggae: a questão Israel-Palestina e o terrorismo (''Shalom Salaam'' e ''In the Name of God'').
''Quem é culpado? Os dois governos (Estados Unidos e Iraque) são culpados por crimes contra a humanidade. Não é o Bem contra o Mal, mas o Mal contra o Mal. Não há justificativa para nenhuma dessas guerras que acontecem, nem por tudo o que Saddam Hussein fez no passado'', diz.
Produzido por Scott Litt (R.E.M., The Replacements, Nirvana), ''Dragonfly'' envereda ainda pelo pop e pela soul music, com as palhetadas experientes de Flea, baixista do Red Hot Chilli Peppers, nas faixas ''Rainbow in the Sky'' e ''Melancholy Mood''.
Ao final da entrevista, com as melosas e quase bregas ''Never Deny You'' e ''Don't You Kill Love'', ao fundo, Ziggy solta mais uma pérola: ''O reggae é como um oceano onde você pode colocar um grande navio, um barquinho ou simplesmente nadar''. Tudo para tentar explicar que o reggae, hoje, é feito por sujeitos com estilos musicais diferentes. Mas com a cabeça no mesmo lugar: lá nos anos 70.

mockup