O cantor e compositor Zeca Baleiro é um sujeito articulado, capaz de conferir estatura conceitual a seus discos. A cada lançamento, costuma divagar sobre seu trabalho cotejando-o com os caminhos e descaminhos da contemporaneidade musical.
Em ''PetshopMundoCão'' (MZA/Abril Music), seu quarto CD, o discurso que o acompanha soa hesitante. Confessa, em texto distribuído à imprensa, que o novo repertório reproduz uma diversidade já testada. ''Eu havia jurado pra mim mesmo que dessa vez faria um disco compacto, homogêneo, centrado, etecetera, que não faria um disco com síndrome de múltipla personalidade, como alguns CDs anteriores. Consumado o ato, só agora me dou conta de que não consegui'' anota ele.
O disco atira para várias direções. Reúne ritmos, levadas e incursões variadas incluindo paródia de drum'n'bass (''Drumembêis'') e influência do rap dos Racionais MC's (''As Meninas dos Jardins''). Os timbres eletrônicos percorrem de ponta a ponta o repertório, para cuja produção Baleiro arregimentou Ramiro Musotto, Jongui e Érico Theobaldo (do grupo Autoload). O disco é repleto de convidados.
O mutante Arnaldo Baptista toca piano em ''Um Filho e um Cachorro'', o soulman Carlos Dafé participa em ''Mundo dos Negócios'', Elba Ramalho e os grupos karnak e Totonho e os Cabra colaboram em ''Drumembêis'', a cantora Vange Milliet empresta a voz em ''O Hacker'', o rapper Fernandinho Beat Box (do grupo Z'África Brasil) dá uma canja em ''Mundo Cão'', o grupo vocal de samba As Gatas reforça o coro em ''Filho da Véia'' e a londrinense Simone Mazzer faz os backings de ''As Meninas dos Jardins''.
Bom letrista, o compositor maranhense empilha trocadilhos e referências à modernidade. ''Vem meu amor / vamos invadir um site / vamos fazer um filho / vamos criar um vírus / traficar armas poemas de Rimbaud'' canta ele em ''O hacker''. ''Eu tava triste tristinho / mais sem graça que a top model magrela / na passarela / eu tava só sozinho / mais solitário que um paulistano / que um canastrão na hora que cai o pano'' declara em ''Telegrama''.
''Eu despedi o meu patrão / desde o meu primeiro emprego / trabalho eu não quero não / eu pago pelo meu sossego / ele roubava o que eu mais valia / e eu não gosto de ladrão'' ironiza em ''Eu Despedi o Meu Patrão''. O disco vem na sequência dos oscilantes ''Onde Andará Stephen Fry?'' (1997), ''Vô Imbolá'' (1999) e ''Líricas'' (2000).
Apesar dos achados poéticos e musicais, Baleiro chega ao quarto trabalho mais festejado do que honestamente reconhecido. Continua levantando suspeitas, continua devendo um grande álbum.

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