MPB-4
  O MPB-4 não é mais o mesmo. Com a saída de Ruy Faria por discordâncias internas – desde o ano passado ele está em fase-solo –, Miltinho, Magrão e Aquiles convocaram Dalmo Medeiros para substitui-lo. Talvez isso explique o fato de o grupo comemorar 40 anos de existência com um CD duplo de compilações em vez de um trabalho inédito. O projeto sai pela Universal Music e traz 40 canções que abrangem desde a fase inicial e politizada do MPB-4, até canções mais maleáveis e com tom menos ou quase nada engajado. Lá estão 40 obras de compositores recorrentes na obra do MPB-4, entre eles Chico Buarque, Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc e outros que acabaram cedendo sucessos aos quatro rapazes, como é o caso da manjada ‘‘Vira Virou’’ (Kleiton e Kledir) e a frágil ‘‘Labirinto’’. Há também preciosidades como a releitura de ‘‘Menina da Ladeira’’ (João Só) e ‘‘Cebola Cortada’’ (Petrucio Maia-Clodô). Mas são as canções com ressonâncias políticas que dão sustança ao disco. Afinal, o MPB-4 foram as vozes mais unidas contra o regime militar. Quantos aos novos rumos estéticos do grupo, o jeito é aguardar um próximo disco.


Baden Powell
  Para muitos, o nome de Baden Powell (1937-200) está atrelado aos afro-sambas, cuja sonoridade do candomblé ele incorporou ao seu violão com a conivência poética de Vinicius de Moraes. Requintado compositor, ele foi o maior violonista de seu tempo por explorar todos os timbres do instrumento. Um nobre e vigoroso panorama do artista está no duplo ‘‘A Bênção Baden Powell’’ (Universal Music). O encarte traz textos do crítico Tarik de Souza. As 36 faixas mostram a versatilidade do músico, cuja arte é reconhecida mundialmente. Há sambas de todas as vertentes, alguns burilados, outros econômicos nos acordes, todos com a marca registrada de Baden. Nas faixas-solos dá para perceber o perfeccionismo do compositor, que conseguiu, a título de ilustração, desafiar um metrônomo – aparelho que marca o compasso de uma canção – com o violão. Intérpretes como Elis Regina, Leny Andrade, Nara Leão e até mesmo Alcione comparecem através de fonogramas antigos. Vinicius de Moraes cantando ‘‘Canto de Xangô’’ acompanhado do Quarteto em Cy é uma das pepitas. Melhor de todos: Baden. Ele e o violão bastavam-se.


Isabella Taviani
  A carioca Isabella Taviani foi revelada em 2003 através da finada gravadora Greens Songs. Seu timbre vocal e suas composições confessionais foram imediatamente associados a também cantora Ana Carolina. Numa primeira audição é bem capaz de confundir mesmo. Mas Isabella não é um mero papel carbono. Nada disso. Isabella Taviani fala sobre os altos e baixos do amor, mas sua musicalidade percorre nuances delicadas e é direta, sem firulas. Agora, a moça está com tudo ao integrar o elenco da gravadora Universal Music e lança um disco ao vivo. Questões mercadológicas para dar visibilidade maior à artista. E é cercada de cúmplices que ela apresenta 14 canções, das quais oito do disco de estréia, com direito a corinho e tudo o mais. Vamos e venhamos: lançar um segundo disco com regravações e ainda ao vivo pode dar retorno satisfatório à gravadora. Mas um disco autoral e inédito faz toda diferença. Feito está, o destaque fica por conta da releitura de ‘‘Atrevida’’ (Ivan Lins-Vitor Martins). Agora, ‘‘Medo da Chuva’’ (Raul Seixas) é forçar um pouco a barra. Isabella tem atitude e talento suficientes para se deixar levar precocemente ao esquemão de uma multinacional.

Péri
  Um horizonte promissor começa a se desenhar para o cantor e compositor baiano Péri. Tudo por conta de Gal Costa, que em seu mais recente e belo disco ‘‘Hoje’’ gravou ‘‘Voyeur’’ e o elevou à categoria de autor emergente da MPB. Na onda favorável, Péri está lançando o quarto trabalho, denominado ‘‘Samba Passarinho’’, lançado pelo selo Baticum, de sua propriedade. Como diz no material de divulgação, trata-se de ‘‘divisor de águas’’. Explica-se: nos discos anteriores ele vertia suas produções artísticas para o pop. Nesse não. São sambas. Na dobradinha voz e violão, Péri traz 12 canções voltadas para o samba-reggae, samba duro, samba-de-roda, Bossa Nova, sambas da melhor qualidade, inclusive literária – caso de ‘‘Dos Prazeres da Canção’’ ou mesmo ‘‘O Samba é Bom’’. Alguns parecem ter endereço certo: João Gilberto, uma das influências diretas do artista baiano. A faixa-título, com direito a remix, é a prova concreta do caminho correto que Péri resolveu trilhar. Autoral – com exceção de ‘‘Meu Mundo é Hoje’’ (José Baptista e Wilson Baptista) – , ‘‘Samba Passarinho’’ chega ao público com asas, com o perdão do trocadilho.

mockup