Tom Jobim dizia, numa época de vacas magras, que a melhor saída para o músico brasileiro era o aeroporto. A cantora carioca Flora Purim e a pianista paulistana Eliane Elias adotaram o lema do maestro e, depois de iniciar carreiras discretas no país, decidiram fazer as malas e se mandar para os Estados Unidos.
Flora saiu daqui em 1967, numa espécie de auto-exílio, descontente com a ditadura militar. Eliane viajou em 1981 para estudar, acatando sugestão do contrabaixista Eddie Gomez após retornar de uma turnê pela Europa. A troca de endereço foi bem-sucedida rendendo-lhes prestígio como divas do jazz.
A consagração traduziu-se em prêmios de revistas especializadas e indicações ao Grammy. Nesta temporada, elas voltam a testar suas reputações com o lançamento de seus novos álbuns. Em ''Speak no Evil'' (EMI-Virgin), Flora Purim interpreta standards do jazz, clássicos do repertório popular americano e composições pinçadas do baú musical brasileiro.
Famosa pela voz seis oitavas - com a qual conquistou duas indicações ao Grammy por Melhor Performance Feminina de Jazz e quatro troféus de Melhor Cantora da revista Downbeat - a cantora mantém as características de trabalhos anteriores embutindo elementos verde-amarelos a melodias de raiz gringa, o que se evidencia já na faixa de abertura, ''This Magic'', na qual a percussão do marido Airto Moreira e a flauta de Gary Meek não escondem as influências tropicais.
Um violão bossa nova, tocado pelo legendário Oscar Castro Neves, também faz as honras pátrias no clássico ''I've Got You Under My Skin'', de Cole Porter. Mas a brasilidade se explicita sem matizes em ''Tamanco no Samba'', de Orlan Divo e Helton Menezes; ''Primeira Estrela'', que Airto Moreira compôs com arranjos de Yutaka Yokokura, em 1984; e ''O Sonho (Moon Dreams)'', assinada por Egberto Gismonti em 1969.
Em ''I Feel You'', a faixa mais bonita do álbum, Flora introduz o ouvinte com vocalises apoiada nas harmonias do piano de Bill Cantos (autor da canção) e no kit rítmico de Airto. A presença do marido, aliás, é recorrente em seus discos apesar de seguirem carreiras autônomas. Quando despontaram, nos anos 60, atuavam na fronteira do jazz com a música experimental. Enquanto Flora trabalhava com Chick Corea, Airto tocava com Miles Davis.
De lá para cá, a cantora lapidou a voz e diversificou o repertório sem nunca abandonar o jazz e a identidade brasileira. É mais ou menos o que fez Eliane Elias ao selecionar material para o álbum ''Kissed By Nature'' (BMG), embora a mudança de atitude sugira mais influências de Diana Krall, a pianista canadense que desde que passou a cantar e interpretar baladas e clássicos da bossa nova tornou-se um fenômeno de vendas.
Além da adoção de um perfil mais (pop)ular, a sombra da colega manifesta-se também nos recursos de marketing mobilizados pela gravadora para ''vender a imagem'' da artista. A valorização da sensualidade, atributo explorado em fotos de divulgação e capas de CD de Diana, parece se repetir no caso de Eliane Elias, que não poupa decotes nas fotos do encarte. Musicalmente, porém, seu disco se sustenta com sobras.
A voz de veludo da brasileira surpreende quem a conhecia apenas pela destreza ao piano. Aclamada internacionalmente desde a década de 80, ela apresenta 10 composições próprias, um medley de Djavan (com as músicas ''Fato Consumado'' e ''Dobrado'') e dois remixes produzidos pelo grupo carioca BossaCucaNova. A faixa-título, que abre o CD, traz seu vocal quente pontuando por um piano suingado capaz de empolgar até quem torce o nariz para gêneros musicais apreciados por homens de meia-idade.
Se na matinal ''A Volta'' remete a Tom Jobim, em ''Apareceu'' lembra as baladas românticas de Ivan Lins. O repertório inclui ainda quatro temas instrumentais, com destaque para o trumpete em ''October'' e o flugehorn em ''September'', ambos executados por Randy Brecker. Na companhia de Eliane estão ainda Marc Johnson (baixo), Joey Baron (bateria e percussão), Rick Margitza (sax-tenor), Paulo Braga (bateria e percussão) e Paulo André Tavares (guitarra).
Radicada em Nova York, a pianista gravou seus discos anteriores pelo selo Blue Note. ''Kissed By Nature'' marca sua estréia em grande estilo no selo Bluebird.

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