Em 1997, num especial para a Rede Bandeirantes, Maria Bethânia dizia, em determinado momento, que não conseguia viver sem água ao seu redor. Soou, a princípio, como um capricho de diva, frase feita, algo do gênero. Quase dez anos depois, a intérprete baiana, coerente em suas convicções, lança o projeto ''Dentro do Mar Tem Rio'' composto por dois discos nos quais mergulha no elemento de grande contemplação pessoal e artística. ''Mar de Sophia'', registrado pela gravadora Biscoito Fino, contém canções voltadas às águas salgadas, pontuadas por textos da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner (1919-2004). ''Pirata'', mesmo opondo-se ao título, arrepia as águas doces com suporte poético de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa (''meu companheiro'') e sai pelo selo Quitanda, de propriedade da artista.
Os álbuns, comercializados separadamente, são estofados por músicas inéditas e temas que Maria Bethânia buscou na memória, principalmente a afetiva. ''A água é um elemento imprescindível, de grande força e beleza e que me comove sempre. Você não pode conter a água nas mãos porque ela vai embora e isso me transmite sensação de liberdade, de que não podemos esquecer que queremos e precisamos ser livres'', avaliou na entrevista coletiva realizada no último final de semana, no Rio de Janeiro. Vindo de Bethânia, tais águas receberam tratamento diferenciado. Escoam por intrincados conceitos. Abastecem o canto dela compositores consagrados como Paulo César Pinheiro, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Braguinha, Caetano Veloso e, claro, Dorival Caymmi. Lado a lado estão autores recorrentes em sua discografia como Roberto Mendes e também musicistas e letristas em estágio de cristalização e representados aqui por Ana Carolina, Jorge Vercilo, Vanessa da Mata, entre outros.
Para formatar ''Mar de Sophia'', ela se ocupou durante cinco anos em pesquisas e seleção de poemas da autora lusitana, que traduziu o mar com olhar e escrita intensos e de modo muito particular. ''Normalmente o mar está ligado aos marinheiros, aos marujos, aos lobos do mar, às figuras masculinas. Dona Sophia fala do mar com uma intimidade muito própria e isso me cativou ao ponto de querer fazer algo perto da poesia dela'', pontifica. Foi o escritor português Antonio Alçada Batista, a quem esse disco é dedicado, quem colocou Bethânia em contado com a família da conterrânea. Ela conversou com uma das filhas de Sophia, então adoentada mas que sinalizou positivamente ao contexto em que seus poemas seriam utilizados.'' Maria, uma das filhas, me perguntou se eu não queria conversar pessoalmente com Dona Sophia. Travei completamente e disse não. Não tive pernas, coragem. Ela era muito grande para mim'', relembra.
Em ''Pirata'', de onde jorram doces águas, Maria Bethânia valeu-se de outra vibração lírica enfatizada por um repertório de canções a ela muito caras. ''É um disco mais infantilmente realizado em que me esqueço um pouco das responsabilidades e fico brincando com o tema. ''Pirata'' são as águas doces, rios, cachoeiras, sereno, essas aguinhas'', observa.
Discos nas prateleiras, a intérprete mais enigmática da música brasileira estréia nacionalmente na próxima sexta-feira, em São Paulo, a turnê de ''Dentro do Mar Tem Rio''. Roteiro dela e de Fauzi Arap. Direção geral de Bia Lessa e na condução musical, o maestro e amigo Jaime Alem. Não se pode dizer que o espetáculo será um ''encontro das águas''. Bethânia não gosta porque no candomblé, religião da qual é adepta, tal expressão conota lugar de obrigação, de oferendas, de reverências. ''Quando falam 'encontro das águas' eu tremo um pouco. Prefiro dizer que no show as águas vão se misturar, se namorar'', avisa. Então tá!
Se nos discos não há explicitamente canção ou poema destinados às causas ambientais (os sacrifícios pelos quais as águas passam), ao vivo e em cores, e com dedo em riste, Bethânia solta farpas ao ponto de comover. ''Há muito tempo o chamado ''progresso'' vem matando meus rios, minhas cachoeiras... Meio morto o mangue está'', lista. A revolta com o elemento de zelosa admiração havia sido resgatado através de ''Purificar o Subaé'' (Caetano Veloso), originalmente gravada em 81, resgatada em ''Brasileirinho'' (2004) e acoplada à ''Miséria'', hit dos agora poucos Titãs. Ela contextualiza o insensatez humana com a perrenga pela qual passa as águas do rio São Francisco. ''Mexer em leito de rio está errado!'', decreta. Tem razão.
Por outro viés, Bethânia cita um ponto forte que também norteou a idealização do seu trabalho atual. ''Sou nordestina e queria falar de onde a água não chega, onde falta, onde há seca e sede'', frisa. Nos discos atuais, em especial ''Pirata'', o assunto poderia ser tocado, mas haveria necessidade de desenvolvê-lo longa e profundamente. Não deu. Porém no show - que posteriormente segue para o Rio de Janeiro e Porto Alegre e retoma seu curso em fevereiro - a casca dessa ferida social será mexida por meio de músicas e textos. A voz de Maria Bethânia, pois, deverá promover reflexões não só poéticas. Afinal, as águas dessa senhora de 60 anos, 42 anos de carreira e quase a mesma quantidade de discos gravados, vêm temperadas com açúcar e sal e não são rasas. Nunca foram. Nunca foram, aliás.
- O jornalista viajou ao Rio de Janeiro a convite da gravadora Biscoito Fino

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