DISCOS/LAN#AMENTOS
Nelson Sato
de Londrina
Um disco de canções, em que a primazia da melodia superasse qualquer eventual deslumbramento com loopings, samples, grooves e outros efeitos eletrônicos. O que era a intenção prévia, cumpriu-se a rigor nas soluções musicais encontradas pelo cantor e compositor paraibano Chico César em seu novo álbum Mama Mundi.
O disco chega às lojas pelo selo MZA, vinculado à gravadora Universal. Com o trabalho, Chico César reforça sua reputação como um dos nomes talentosos do que se convencionou chamar de nova MPB. Eu queria que as canções norteassem o disco e não fossem atropeladas pelos recursos de estúdio explica ele, por telefone.
Sua preocupação, conta, era sobretudo manter o carimbo pessoal. Quando estava concluindo o trabalho, percebi que muitas músicas traziam rastros do deslocamento humano pelo planeta. Em uma faixa, por exemplo, há um músico africano tocando cora (harpa africana); em outra há um português tocando uma gaita de foles. Eu mesmo compus algumas canções longe do Brasil. Apesar disso, apesar das velas do disco serem insufladas pelo mundo, a autoria está lá delineando tudo.
Quando apareceu, Chico César foi comparado a Caetano Veloso. Os ecos nas frases, diziam, não escondiam o carbono de suas interpretações. Mas a diferença, convém dizer, é gritante. Chico está mais para um ascensorista de elevador treinando para um videokê. É um cantor sem brilho, com tom e timbre anasalados que jamais ultrapassa os limites da eficiência.
Seu forte é a composição. É um inspirado inventor de melodias e letras. Como em seus três álbuns anteriores, o novo material reitera a variedade rítmica, embora privilegie o formato canção. No forró Nego forro, Chico aparece acompanhado por um time classudo de músicos que inclui o acordeonista Toninho Ferraguti, o percussionista Marcos Suzano e o baixista Swami Jr. No coco Aquidauana, repete-se a qualidade instrumental com o acréscimo de Naná Vasconcelos nos batuques.
Há ainda o samba-enredo Sonho de Curumim com Mário Manga no cavaquinho e o reggae Folclore trazendo Simone Julian no sax-soprano e flauta. Do repertório, várias faixas poderiam ser extraídas para compor trilhas de novelas e estourar nas paradas. A bonita Pensar em Você foi a primeira escolhida para promover o disco. É só pensar em você que muda o dia, diz o verso que abre a canção.
O clipe foi gravado semana passada num acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, na cidade de Matão, no interior paulista. O compositor conta que se indentifica com o MST. Intensifiquei contatos com eles desde que participei há alguns anos de um festival organizado pela entidade no Sul do País. De lá para cá, cantei no Espírito Santo na época do julgamento do líder José Rainha e em Campinas durante uma festa promovida pela juventude do movimento.
No disco, Chico cita Diolinda (mulher de Rainha) na faixa Pot-pourri Dança do Papangu, que traz a voz de seu Francisco, pai do compositor. Além de Pensar em Você, outra faixa radiofônica é a balada acústica Tambor com o maestro Nelson Ayres ao piano. Os arranjos são pontos altos no CD, especialmente em A Força que nunca Seca, parceria de Chico com Vanessa da Matta e já gravada por Maria Bethânia.
Nesta faixa, Naná e Suzano cuidam da percussão, enquanto o baixo acústico é tocado por Célio Barros, vencedor da edição instrumental do Prêmio Visa de MPB. Há ainda o músico africano Basuru Jobarteh executando a cora. O grande destaque do disco, porém, é Talvez Você (Se é melhor ficar só não sei / talvez sair / e alguém me achar / talvez você), uma parceria com Vicente Barreto que inclui arranjo de cordas assinado por Nelson Ayres.
A curiosidade e motivo de controvérsias fica por conta da releitura de Sou Rebelde, gravada originalmente por Lilian (da dupla Lilian & Leno). Chico César explica que a canção é uma lembrança de infância, dessas que a gente escuta até sem querer. Conta que começou a cantarolar e tocar a música há dois anos, quando surgiu o primeiro esboço de repertório para o novo disco.
Admitindo que a regravação poderá gerar preconceitos, ele salienta que neste caso o ouvinte vai deixar de perceber a melodia, a mensagem da letra e a interpretação intimista na qual a rebeldia deixa de ser gritada para ser sussurrada. A turnê promocional do CD será inaugurada no dia 7 de abril, durante o Festival Heineken Concerts, em São Paulo.
Em maio, o cantor e compositor sai em turnê pelos Estados Unidos começando com uma apresentação no Festival de Jazz de New Orleans. É sua primeira excursão na terra de Clinton, onde a música popular brasileira não pára de ser badalada.





