Beatriz Coelho da Silva
Agência Estado
A Portela e a Mangueira, as duas escolas de samba mais antigas do Rio, terão os sambas de seus precursores lançados ainda este ano. Não é coincidência, mas dois projetos separados convergem para o resgate da memória da música popular carioca que estava morrendo com seus artistas. No início do ano, Marisa Monte reuniu a Velha Guarda da Portela e gravou 12 músicas e seis vinhetas inéditas, feitas entre as décadas de 20 e 50.
O projeto da Mangueira, mais antigo, é o Arquivo Geral da Cidade, que cuida da pesquisa e produção.
Ligando os dois projetos e assinando os arranjos e a direção musical está Paulo Roberto Pereira Araújo, o Paulão Sete Cordas, cria da Portela mas com trânsito na Mangueira, pois já tocou com sua Velha Guarda. ‘‘Quando fiz os arranjos e trabalhei nas harmonias, vi que esse pessoal sabia de tudo, especialmente o Cartola e o Nelson Cavaquinho’’, conta Paulão, um negro enorme, de olhos azuis. ‘‘A gente pode até inventar aqui e ali, mas quando chega o acorde que define tudo, tem de escrever o que eles criaram para ficar certo’’.
O disco da Portela vai chamar-se ‘‘Tudo Azul’’ e está pronto desde abril, quando foi gravado em 15 dias. Antes, Marisa Monte ouviu o maior número possível de sambas de portelenses, muitos deles sem outro registro a não ser a memória dos sambistas antigos. ‘‘Este foi o principal motivo que levou Marisa a fazer o disco, porque essas músicas vão se perdendo à medida que os compositores e seus amigos morrem’’, comenta a secretária da cantora, Norma Suely Aguiar, que fez a produção executiva. A morte de Jair do Cavaco pouco antes da gravação provou o acerto de sua iniciativa.
O critério para a seleção das músicas foi, em primeiro lugar, o ineditismo. ‘‘A Velha Guarda da Portela tem quatro discos e, de início, ficaram de fora as músicas já gravadas’’, explica Norma. ‘‘Assim, o fundador da Portela, Paulo Benjamin de Oliveira, não entrou porque a Velha Guarda já dedicou a ele um disco gravado para o Japão’’. Disco, por sinal, inédito aqui por não ter interessado às gravadoras brasileiras. Os outros sambas foram um consenso de Marisa, Monarco (líder da Velha Guarda) e Paulão. Zeca Pagodinho gravou ‘‘Nascer e Florescer’’, de Manacéia; Paulinho da Viola cantou ‘‘Noite que Tudo Esconde’’, de Alvaiade e Chico Santana, e a própria Marisa gravou ‘‘Volta meu Amor’’, de Argemiro, Manacéia e Áurea Martins. Todas as outras foram cantadas pelos portelenses.
‘‘Como tinha muita música, fizemos 12 faixas e seis vinhetas, um recurso muito usado por sambistas antigos, como Clementina de Jesus, ao gravar suas canções de trabalho’’. Quando voltar de suas férias nos Estados Unidos, no fim do mês, Marisa Monte pretende negociar o disco com as gravadoras. Se houver dificuldade, a desculpa não poderá ser falta de verba, pois a gravação, a pesquisa e os cachês dos artistas saíram por R$ 52 mil. Mas a cantora, de família portelense, não pretende repetir a dose com outras escolas.
Quem tem esse projeto é o Arquivo Geral da Cidade, cuja diretora, a antropóloga Lélia Frota, sonhava registrar os sambas das escolas desde o ano passado. Os R$ 77 mil para o primeiro disco, ‘‘Mangueira - Sambas de Terreiro e Outros Sambas’’, só saíram este ano e ela deu início à pesquisa. ‘‘Fizemos tudo com a direção da escola e o presidente da ala dos compositores, Anésio dos Santos, o Cumprido, orientou os pesquisadores’’, conta Lélia. ‘‘Como antropóloga, sei que não se sabe do povo nada que já não seja do conhecimento dele’’.
Tal como na Portela, muitas músicas só estavam na memória dos sambistas da velha guarda. O compositor Geraldo da Pedra, pai das pastoras Zenith e Soninha, morreu antes de as gravações começarem.
‘‘Nós recuperamos muita coisa em reuniões na casa de um ou de outro, verdadeiros conselhos tribais em que uma pessoa lembrava a primeira parte do samba, uma segunda continuava e uma terceira corrigia uma palavra ou nota que os dois primeiros esqueciam’’, conta Lélia. Hermínio Bello de Carvalho assumiu a coordenação musical e o disco vem sendo gravado aos poucos, mas já tem preciosidades. Como, por exemplo, a estréia em gravação de Zé Ramos, compositor de ‘‘Cidade do Samba’’, cantada por Chico Buarque. Ele gravou cinco músicas. Dona Neuma, que já foi pastora, gravou o samba ‘‘Linda Demanda’’, do pai dela, Saturnino Gonçalves, e Nelson Sargento preferiu deixar seus sambas de lado e gravar ‘‘Freira Querida’’, música inédita de seu pai, Alfredo Português e Nelson Cavaquinho. O disco deve sair até setembro com um encarte no qual cada compositor é apresentado e fala sobre os sambas que fez e a história da escola.

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