As grandes gravadoras deram uma brecada na recuperação de acervos, mas de vez em quando os colecionadores ainda são brindados com bons lotes, como o que a EMI distribui nas lojas na próxima semana. São dez títulos inéditos em CD de seu catálogo, incluindo LPs da Odeon e da Copacabana, de Beth Carvalho, Elizeth Cardoso, Rosinha de Valença, Alaíde Costa, João Nogueira, Taiguara, Paulo Sérgio, Cauby Peixoto, Ângela Maria e Dalva de Oliveira. Faltam fichas técnicas nos encartes, mas o som dos CDs tem ótima qualidade técnica. O projeto é do pesquisador e produtor Thiago Marques Luiz, que escreveu breves textos nas contracapas dos CDs.


-ANDANÇA (1969) - Raro e ótimo álbum de estreia de Beth Carvalho, cuja faixa-título, composta por Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, foi classificada no Festival Internacional da Canção de 1968. Boa de samba ela sempre foi, mas neste álbum Beth revela os dotes de grande intérprete também de outros estilos, com arranjos dos maestros Gaya e Lyrio Panicali. Sua versão para a densa ''Sentinela'' (Milton Nascimento/Fernando Brant) é talvez a mais surpreendente nesse aspecto.



- CHEIRO DE MATO (1976) - Sofisticada violonista e compositora sensível, Rosinha de Valença (1941-2004) alternou com maestria temas instrumentais e canções delicadas e autorais, como ''Os Grilos São Astros'', ''Usina de Prata'' e ''Madrinha Lua'', predominantes na primeira metade deste lindo disco de acento naturalista. Na segunda parte ela se dedica mais a composições alheias, e não menos belas, de Waldir Azevedo e Sueli Costa, entre outros.



- CORAÇÃO (1976) - Foi Milton Nascimento quem se empenhou em produzir este que é um dos melhores discos de Alaíde Costa. A requintada sessão musical conta com instrumentistas de primeira linha, como Novelli, Nelson Ângelo, Toninho Horta, Robertinho Silva (todos agregados do Clube da Esquina), além de João Donato (que fez as orquestrações) e Ivan Lins. Alaíde está em casa, cantando belamente preciosidades de Milton, Johnny Alf, Danilo Caymmi e Ana Terra, Sueli Costa e de alguns dos músicos citados acima.


- DALVA (1958) - Disco mais antigo (e também o menos interessante) do pacote, este de Dalva de Oliveira (1917-1972) tem canções exclusivas de Humberto Teixeira, Lupicínio Rodrigues, Hervé Cordovil e Ciro Monteiro, entre outros. Léo Peracchi e Oswaldo Borba assinam os bons arranjos, mas a interpretação exacerbada de Dalva com forte conotação kitsch, excedendo nos vibratos, não cai bem em qualquer ouvido.


- FOTOGRAFIA (1973) - ''Fotografias'' é um marco importante da fase experimental de Taiguara (1945-1996). Com letras entre engajadas e amorosas, melodias intrincadas, canto contundente e arranjos sofisticados de Francis Hime e Eduardo Souto Neto, o disco abre com um de seus clássicos, ''Que as Crianças Cantem Livres''. Tibério Gaspar, Paulo Moura e Nivaldo Ornellas estão entre os músicos que o acompanharam em 13 canções autorais, como a comovente ''Romina e Juliano'', o choro saudosista ''Cartinha pro Leblon'' e ''Não Tem Solução'' (Dorival Caymmi/Carlos Guinle).


- JOÃO NOGUEIRA (1972) - No disco homônimo de estreia, ''João Nogueira'' (1941-2000) assina sozinho 7 das 12 faixas, entre elas, Das 200 Para Lá, gravada antes por Eliana Pittman, e o belo samba-choro ''Mariana da Gente''. Nas demais, destacam-se o samba clássico ''Heróis da Liberdade'' (Silas de Oliveira/Mano Décio da Viola/Manoel Ferreira), pérolas de Casquinha e Wilson Baptista e um surpreendente Egberto Gismonti (''Pr'Um Samba'').


- ME AJUDE A MORRER (1980) - Penúltimo álbum de Paulo Sérgio (1944-1980), este disco tem uma aura mórbida, já que ele de fato morreu pouco tempo depois, de derrame cerebral, aos 36 anos. Paulo canta baladas que lembram os anos da já então distante jovem guarda. Apesar do título deprê, o disco também tem canções divertidas, como o rockinho ''Lagartinha'' (Rossini Pinto/Paulo Bruno), o charleston ''Eu Não Sou o Que Você Está Pensando'' e o samba-pop ''Minha Madrinha''.

- MOMENTO DE AMOR (1968) - Elizeth Cardoso, a Divina, também chamada de Primeira Dama da Canção Brasileira, derrama poesia em cada faixa - não por acaso o disco abre e fecha com Vinicius de Morais e Tom Jobim (''Derradeira Primavera'' e ''Insensatez''). Elizeth canta o então novato Chico Buarque (''Lua Cheia'' e ''Carolina''), Sílvio César, Geraldo Vandré, Edu Lobo e Torquato Neto, Eumir Deodato e Paulo Sérgio Valle. Arranjos de Ciro Pereira e Luiz Chaves (do Zimbo Trio) emolduram de luxo interpretações de cortar os pulsos.

- SUPERSTAR (1972) - Em seu único disco na Odeon, Cauby deu uma mexida no repertório tido como ''cafona'', interpretando canções de autores mais sofisticados. Aqui ele empresta o vozeirão a Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Com a mesma dedicação arrebatada, entrega-se a Roberto Carlos e Erasmo Carlos, aos clássicos da velha guarda ''Chão de Estrelas'' (Silvio Caldas/Orestes Barbosa) e ''Mulher'' (Custódio Mesquita/Sady Cabral) e outros menos cotados.

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