Discos (Ranulfo Pedreiro)
ReproduçãoDonato & Estéfano
A dupla que fez sucesso com Estoy Enamorado lança o terceiro CD, De Hombre a Mujer pela Sony. A produção cuidadosa caminha rumo às paradas. O disco parece concebido para agradar. Então, mesmo a mistura de ritmos latinos com pop não segura canções adocicadas como De La Tierra al Cielo. Uma olhada mais atenta pelo encarte explica por que a parte instrumental funciona o que escorrega, na maioria das vezes são os arranjos, não os músicos. Nos metais aparecem, discretos, nomes como Arturo Sandoval, trompetista que tocou com Dizzy Gillespie. A dupla mescla doses percussivas e naipe de sopros com programação eletrônica. Essas características não parecem suficientes para segurar um álbum talhado para o sucesso, e por isso mesmo carregado de clichês. Já está mais do que na hora de compositores latinos entrarem no Brasil. Mas a peneira tem que ser mais seletiva.
ReproduçãoRoberto Leal
Roberto Leal resolveu homenagear Roberto Carlos sob pretexto de 500 anos de relações entre Brasil e Portugal. O projeto foi encampado com o guitarrista português Manuel Mendes e um naipe de cordas misturado programação e teclados. Tudo para dar um clima de fado, um acabamento mais erudito, uma produção mais primorosa. O que poderia dar errado? As composições escolhidas, como Amada Amante e Cavalgada, não obedecem direito aos arranjos. Como um cavalo temperamental, elas parecem dar uns pinotes de vez em quando. A bateria e o teclado criam um ambiente quase brega, enquanto as cordas giram por arranjos econômicos. Nesta salada, aparecem os solos de Manuel Mendes. Alguns momentos evidenciam o desencontro. Em outros, como Desabafo e Cavalgada, a fórmula quase dá certo. Em Outra Vez, o escorregão aparece já no início, quando Leal resolve declamar a primeira estrofe da música. Brasil/Portugal 500 anos: Uma História de Amor saiu pela EMI.
ReproduçãoMulheres no repente
Se os discos sobre repente são difíceis de encontrar, o que dizer deste CD gravado com duas grandes repentistas, Mocinha da Passira e Minervina Ferreira? Ambas embarcam em uma peleja em que não faltam discussões sobre a colocação da mulher na sociedade. E provam que entendem do riscado, debatendo em estilos como sextilhas, motes, martelos e toadas. É cultura arraigada no sertão, localizada no âmago do povo. Para quem está acostumado com os arranjos açucarados que infestam o mercado, o canto agreste pode não agradar. O disco traz participação de Chico Galvão na viola. Vale destacar que o repente é um ramo rico e importante de nossa história musical. Segundo o diretor artístico do CPC selo pelo qual o disco saiu , Marcus Vinícius, esta é a primeira gravação de peleja entre duas mulheres repentistas. A importância do disco, portanto, é redobrada.
ReproduçãoFeitiço
O compositor Nei Lopes, sambista sério, costuma dizer que no samba já se cantou de tudo, inclusive o amor. O gênero, portanto, não é monotemático como o atual pagode faz parecer. Doce Feitiço, CD do grupo Feitiço lançado pela Virgin, segue a tendência obedecendo as normas impostas para o sucesso. O grupo se limita a falar de amor em letras ingênuas e demonstra aptidão para baladas adocicadas. O disco traz vários clichês: arranjos baseados nos teclados, refrão com corinho, samba padronizado e melodias previsíveis. A fórmula está desgastada e a indústria já acena com novos interesses, especialmente pelo rock. Novidades virão por aí, e a mesma novela que ocorreu com o sertanejo e a lambada promete se repetir. Ou seja, de tantos grupos, poucos vão sobreviver. A última faixa do disco traz um pot-pourri com Olha o Fogo (Luizinho SP) e Remandiola (Ademir Fogaça).
ReproduçãoComadre Florzinha
Lançado no ano passado, o disco Comadre Florzinha reúne um grupo de mulheres voltado para cantos de domínio público e temas folclóricos, enfim, a preservação e o registro da parte mais abandonada de nossa cultura musical. São cocos, reisados e cantorias do trecho da Zona da Mata entre Pernambuco e Alagoas. As seis garotas cantam e fazem a percussão. E garantem, em estúdio, a espontaneidade de manifestações folclóricas. O nome foi extraído de um ente mitológico que vive nas florestas para protegê-las. Além de canções recolhidas, o disco traz produção própria do Comadre Florzinha, como Poica (Renata Mattar) e Satuba (Isaar de França), além de Xique-Xique (Tom Zé), Angicos (Chico Science/Lúcio Maia) e Grande Poder (Mestre Verdilinho). Comadre Florzinha saiu pelo CPC-Umes, com distribuição da Eldorado.
ReproduçãoJulio Iglesias
A Sony está lançando In Concert, um disco duplo com os maiores sucessos de Julio Iglesias ao vivo, em shows realizados na Austrália, Japão, Inglaterra e França. O cantor, que tempos atrás reclamou da própria carreira, abre o primeiro disco, após uma introdução, com uma versão em espanhol de Beguin the Beguine, de Cole Porter, compositor homenageado também em um pot-pourri com Night and Day, True Love e I Love Paris. O lançamento tenta agradar diversos países onde Iglesias faz sucesso: Paris, no pot-pourri Cantando a Francia; América Latina, em Cantando a Latinoamerica, outro pot-pourri que traz até Cucurrucu Paloma (Mendez); e México. Do Brasil entrou Samba da Minha Terra (Dorival Caymmi). Há também uma versão de Feelings, com créditos para Morris Albert. Enfim, um prato cheio para quem gosta de romantismo e doses elevadas de açúcar.





