Responsável por metade do sucesso de Roberto Carlos desde 1963 até hoje, Erasmo Carlos, 58, viu sua própria carreira se desacelerar nestes anos 90 - foram apenas dois discos, só um com músicas inéditas.
Sua obra anterior está semi-esquecida. Só agora, mais de uma década após o surgimento do formato CD, a RGE promete - para novembro - o relançamento de quatro dos seis LPs de que dispõe. De 14 títulos, a PolyGram só oferece dois em CD. Dona de um, a Sony o mantém no arquivo. Em sua casa na Barra da Tijuca, no Rio, Erasmo, desbravador do rock-n’-roll brasileiro, afirma que esse é o curso natural. ‘‘Não há mais necessidade, mesmo pela maturidade, de existir essa busca incessante, essa ansiedade. Contento-me com menos, quero ir parando. Não é como jogador de futebol, que deixa de jogar e vai ser técnico. Mas é. Não é, mas 钒, afirma. A seguir, leia trechos de sua entrevista.
Por que você sumiu?
Não, eu não sumi. Estou numa ativa muito grande. Gravei para o CD ‘‘Casa da Bossa’’ com Nana Caymmi e participei do CD dela. Gravei ‘‘Capitão de Indústria’’, no songbook do Marcos Valle, e ‘‘Feminino Coração de Deus’’, para um tributo ao Sérgio Sampaio. Estou compondo também, apenas não estou fazendo show. Resolvi dar um tempo. Não pretendo fazer show tão cedo. Venho resolvendo diminuir muito essa coisa de trabalho. Não é parar, é diminuir. Mas estou com saudade. Há muito tempo venho querendo voltar, mas sempre me apresentam outros projetos.
Há seis anos você não lança um disco de inéditas. Por quê?
Me toquei que estava regravando muito, por solicitação da indústria. Não tinha tempo para fazer coisas novas, houve aquele projeto da jovem guarda, regravei dez músicas. O disco ao vivo (de 89) era só de regravações, ‘‘É Preciso Saber Viver’’ (96) também.
As modas de agora - pagode, axé - diminuem o interesse do mercado pelo seu trabalho?
Bom, isso é óbvio. As rádios se especializaram em gêneros musicais e faixas etárias de público. Isso não é um problema só comigo, é com todos da minha geração. Você não ouve Chico Buarque no rádio. As rádios que tocam sucessos têm seus trunfos marcados. Não é minha área. A gente, quando é solicitado, faz.
Você tem recebido propostas que prefere recusar?
Não, acabo fazendo. Às vezes você aceita, e o projeto se desenrola para outros caminhos. Quando está pronto, não era bem aquilo que você queria. Liminha quer fazer um acústico para a MTV, mas aí vêm as regravações de novo. Eu queria fazer um de inéditas. Há anos não consigo essa experiência.
Sua presença discreta nos anos 90 é mais responsabilidade sua ou do mercado?
Vamos dizer que seja de todos. Há minha diminuição de ritmo de trabalho, não quero mais ficar exposto a certas coisas, acho que tenho esse direito. Não preciso fazer meu nome, graças a Deus, já está feito. Preciso só manter.
E concessão, você ainda precisa fazer?
Isso aí sempre você vai fazer, sabe. O maior artista do mundo faz uma concessãozinha - uns mais, outros menos.
Por que Roberto Carlos ficou mais presente que você?
É, de repente a proposta dele é essa; a minha, não. Sou inconstante em certas coisas. Dizem que geminiano é volúvel, eu sou. Em alguns períodos, enjôo de ouvir música, não aguento. Vou vivendo minha vida, não tenho pretensão de conquistar o mundo. Nunca tive. Chego, faço minha praia e vou para minha vida.
Você não acha que, em sua parceria com Roberto, o nome dele acaba ocultando o seu?
Isso aí também varia muito de década para década, ou de geração. Nos anos 70, acho que era o contrário. Depois muda. Isso não é importante entre nós.
Ter esse mito ao seu lado não o intimida de alguma forma?
Não, intimidar, não, mas concordo com você que sou ofuscado por ele. A culpa não é dele nem minha, é de quem cultua, da própria condução da vida dele, que o levou a isso. Ele tem um carisma muito grande, é um mito. Quem é é. Se você competir com o mito, não vai ser fácil. Mas, se um torce pelo outro, tudo bem.
Você se acha bom cantor?
Acho-me razoável, gosto. Sou criativo em estúdio. Colo arranjos e coisinhas para valorizar minha interpretação. Tenho meu estilo, que anda meio esquecido porque andei regravando muitas músicas que Roberto cantou. Aí saio um pouco, quero ser ele, o que é difícil. Tem sido direito, mas não é para comparar. Claro que vão preferir as do Roberto.
Se você quiser começar a compor um disco agora, Roberto estará disponível para parcerias?
Estamos nos reunindo para compor o próximo disco dele. É claro que hoje a agenda dele é muito mais cheia, mas assim que terminarmos vou começar a pensar no meu disco. Aí é questão de combinarmos as parcerias.
A partir de 68, seus discos começam a ficar mais ‘‘black’’. Que influência Tim Maia exerceu nisso?
Aprendi a tocar violão com ele. Quando começamos a fazer sucesso, ele estava nos EUA. Eu dizia no telefone que estava na parada de sucessos, ele não acreditava, dava risada. Com a volta dele e a chegada de Toni Tornado, Getúlio Cortes, Gerson Combo, Cassiano, Hyldon, todo mundo ficou metido a cantar soul.
Quando os Mutantes surgiram, representaram uma ameaça à jovem guarda?
Que é isso? Era um grupo de que eu gostava, seguia Peter, Paul & Mary, Mamas & Papas. E todo mundo era a fim da Rita Lee, ela era uma deusa. Eles cantaram no ‘‘Jovem Guarda’’, todo mundo cantou. Caetano, Gil, Elis, Elizeth, Cyro Monteiro. Acho que só Vandré e Edu Lobo não foram.
O que mudou na música desde que você começou?
Hoje há muito gênio por aí, mas antigamente o amor estava muito mais presente, até mesmo na relação entre artista e gravadora. Hoje em dia isso não existe mais, o mundo mudou. Os números é que importam, um cara como eu só tem que regravar.

mockup