Ed Motta é um colecionador compulsivo de discos de vinil. Mensalmente, adiciona à sua coleção cerca de 100 deles. Mas, por uma ironia da indústria musical, por enquanto só terá seu novo trabalho lançado em formato digital no Brasil. ''Poptical'' é uma volta ao lado mais pop do cantor, mas sem deixar de lado toda a riqueza instrumental acumulada em 15 anos de estrada. O disco sai também na Europa e no Japão pela gravadora Trama inclusive no formato bolachão, tão querido pelo músico.
Quem gosta do Ed dos hits (''Daqui pro Méier'', ''Colombina'', ''Vendaval'') vai encontrar em ''Poptical'' motivos de sobra pra balançar o esqueleto. E quem seguiu mister Motta pelos caminhos jazz-cinemascope de ''Dwitza'' também não vai se decepcionar. Aquelas dúzias de teclados e pianos dos anos 70, como o RMI e o Arp String Ensemble, continuam a formar a textura do som. O difícil disco anterior, com ênfase no instrumental, não foi sucesso de vendas no País mas abriu ótimas portas para o trabalho do cantor no exterior.
''Tenho a intenção de universalizar meu trabalho'', reconhece, ao comentar as quatro faixas do novo disco cantadas em inglês. ''The Rose That Came To Bloom'', a primeira, tem letras escritas por Jean-Paul ''Bluey'' Maunick, líder do combo acid jazz Incognito. É uma delicada canção, levada apenas pelo piano e voz de Ed, e lembra bons momentos de Stevie Wonder, ou mesmo as canções americanas dos anos 50.
Já ''Rainbow's End'', valsa sedutora, é um dos pontos altos do disco. Tem até mesmo um solo de steel guitar, que, por incrível que pareça, casa direitinho com melodia e vocais. A voz de Ed Motta, aliás, é a grande estrela de ''Poptical''. Beneficiado pela excelente produção (a melhor já concebida pelo artista), o privilegiado gogó de Ed esparrama-se soberano sobre os arranjos do álbum. Ele garante que não foi intencional. ''Gravei toda a voz em dois dias só'', ressalta.
A banda, a mesma que gravou ''Dwitza'' e acompanhou o cantor na última turnê, colabora. O novo trabalho traz o instrumental mais coeso de toda a discografia de Ed Motta. Bem-dotado tecnicamente, o grupo é na teoria uma formação de jazz. O que não significa problema quando o assunto são pepitas pop-soul como ''Gifts anda Sorrows'' (na linhagem dos ídolos Gil Scott-Heron e Donny Hathaway) e a altíssimo astral ''Que Bom Voltar''.
Nesse retorno ao seus instintos soul, o artista relembra os bons momentos de ''Entre e Ouça'', o subestimado LP que gravou em 1992. ''Tem Espaço Na Van'', a segunda de ''Poptical'', emenda pop, funk e pinceladas jazzy para criar um groove tão irresistível quanto delicado, tão acessível como virtuoso. Chega ao mesmo sincretismo musical ao qual Prince chegava no início dos anos 80. Mas a riqueza sonora é ainda maior.
Talvez o jeitão ''pra cima'' possa ser explicado pela chegada de Ed Motta à Trama, que tem em seu cast as maiores revelações da nova MPB. Uma delas, Jairzinho de Oliveira, também colaborou em ''Poptical''. É dele a letra de ''Pra Se Lembrar'', canção alegre com arranjo electro-jazz. ''Existe uma afinidade de conduta entre o meu trabalho e o do pessoal da gravadora, e acho que isso transparece no disco'', diz o cantor, após garantir que vai comprar apenas um CD nesse ano: o novo da banda america Steely Dan. A obra sai no próximo dia 12, e só a adoração de Ed pelo grupo explica a concessão. ''Faz uns cinco anos que não compro um CD'', afirma.

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