Psicodelia em preto-e-branco. A imagem, que sugere uma contradição em termos, foi adotada pelos músicos da Nação Zumbi para descrever ''Futura'', o novo álbum da banda. O disco, o sexto da carreira, chega às lojas pela gravadora Trama co-produzido pelo grupo em parceria com o canadense Scotty Hard.
Traz 12 faixas inéditas que, se não anunciam uma guinada no trabalho, amenizam a fúria percussiva dos CDs anteriores. Colocando os tambores em segundo plano, sobressai a guitarra de Lúcio Maia e um arsenal de timbres raras vezes explorado. Há ênfase, inclusive, no naipe de metais na faixa ''Sem Preço''.
Agora o maracatu atômico namora o suingue à la Jorge Ben-anos 70, como se ouve em ''Memorando''. Mas é em ''Respirando'', cuja letra fala da iminência do fim do mundo, que Jorge du Peixe (vocal), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Gilmar Bola 8 (tambor), Pupillo (bateria) e Gira (tambor), Toca Ogan (percussão) e Marquinhos (percussão) alcançam o ápice nesta nova safra de composições.
Precursora do mangue beat, a Nação Zumbi segue uma trajetória irrepreensível ao longo de mais de uma década. Não foram poucos os que temeram o fim do grupo com a morte de Chico Science, de acidente automobilístico, em fevereiro de 1997. Mas os dois álbuns gravados posteriormente sem a presença carismática do antigo líder mantiveram a reputação da bandas nas alturas, o que parece se repetir com ''Futura''.
As gravações do novo CD contaram com participações dos músicos Catatau (Cidadão Instigado), Mauricio Takara (Hurtmold), Kassin e Alexandre Basa. O conceito do disco se mostra já na capa em preto-e-branco, cuja ilustração traz uma figura geométrica psicodélica de onde sai o ícone de uma figa representando o feminino, o masculino e a continuidade da vida. A turnê do álbum começa em novembro, mês em que a banda toca no festival ''Claro que é Rock'' ao lado de Iggy Pop, Flaming Lips, Sonic Youth, Cachorro Grande, Nine Inch Nails, Suicidal Tendencies e Good Charlotte . A seguir, leia trechos da entrevista com o baixista Dengue.

O que ''Futura'' traz que não foi explorado nos discos anteriores da Nação Zumbi?
Dengue: A parte harmônica está mais em evidência do que nos outros 5 álbuns da banda, que destacavam a percussão com os tambores à frente. No novo CD, puxamos o andamento para trás. Não é um disco para pular. Ele ficou até psicodélico.

Maracatu em versão psicodélica. Como é isso?
A psicodelia não é nova, mas continua inspiradora. Ela está sempre em transformação fornecendo climas. É um excelente exercício musical. A gente tomou os sons viajantes como base junto com as harmonias. Foi divertido compor. Mas no nosso caso, não buscamos a psicodelia colorida dos anos 60. É uma psicodelia em preto-e-branco, mais sóbria, inclinada para o afro-futurismo.

Vocês produziram o disco em parceria com o canadense Scotty Hard, que já trabalhou com o Morcheeba. Como foi a experiência?
Nós já o conhecíamos desde o disco anterior, que foi mixado por ele. Desta vez resolvemos chamá-lo para operar a mesa e ele sacou qual era o conceito do álbum, que é dar uma idéia de futuro, de modernidade, fertilidade e boas vibrações. Ele pirou no projeto e chegou a tocar sintetizador em algumas faixas.

A faixa ''Sem Preço'' traz o trompete quase em primeiro plano, o que é incomum no trabalho da banda...
É verdade. Assim, de cabeça, lembro que utilizamos metais em duas músicas do ''Afrociberdelia'' e no nosso álbum de remixes (CSNZ). A Nação trabalha mais em cima de percussão e ritmo.

Como você avalia os desdobramentos do mangue beat, dez anos depois do lançamento do movimento em Recife (PE)?
O mangue beat provocou uma transformação na cidade. Antes havia uma deficiência grande de gente que trabalhava na área de som. Não havia técnicos, roadies e nem a quantidade de bandas que tem hoje. Depois da explosão da cena, com a demanda dos artistas, apareceu muita gente. E as bandas que foram surgindo já vinham com os horizontes expandidos, deixando de fazer apenas música regional para fazer música brasileira e universal. O que houve ali foi mais do que um movimento. As pessoas adotaram o mangue beat como um estilo de vida.

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