DISCO/LANÇAMENTO - Qualidade em dose dupla
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segunda-feira, 13 de março de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Na última sexta-feira, Marisa Monte encabeçava a lista dos CDs mais vendidos na maior loja virtual do País, a Submarino. Nenhuma surpresa, a não ser pelo detalhe de que era o dia anunciado para o lançamento simultâneo de seus dois novos discos, com as primeiras cópias de ''Infinito Particular'' e ''Universo ao Meu Redor'' ainda sendo empacotadas para o varejão.
Mais do que o impacto mercadológico, porém, a nova coleção de canções da cantora e compositora carioca vem reforçar os argumentos dos que lhe atribuem o título de maior talento musical de sua geração. Aos 38 anos, a diva preserva controle total sobre sua carreira, não se atrelando a regras ditadas pela indústria fonográfica. Mantém-se íntegra nas opções estéticas, ostentando autonomia para gravar quando e como quer seus discos.
Montou um estúdio dentro de sua casa. Criou um selo próprio, Phonomotor, com distribuição mundial pela EMI. Despontou como intérprete-revelação no final da década de 80, ainda que de gosto excessivamente eclético para o paladar de alguns. Hoje, além de cantar como poucas no mundo, compõe, produz e toca vários instrumentos.
Agora resolveu lançar dois álbuns de uma só vez para dar vazão a um vasto material inédito acumulado, garimpado durante o período em que cuidou de seu filho, Mano Wladimir (fruto de seu casamento com o músico Pedro Bernardes, conhecido também pelo heterônimo Wladimir Gasper). A decisão de lançá-los simultaneamente soou-lhe natural. Não queria desovar um deles, sair em turnê e deixar o outro criando teias de aranha na gaveta.
Seu último disco-solo, ''Memórias, Crônicas e Declarações de Amor'', saiu em 2000. Dois anos depois, lançou ''Tribalistas'', projeto coletivo gravado em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Os dois parceiros voltam a bater ponto em ''Infinito Particular'' e ''Universo ao Meu Redor''. O primeiro disco, o mais autoral de sua trajetória, tem vocação pop.
O outro é dedicado ao samba, ou melhor, à atmosfera do samba, como ela frisa no DVD promocional distribuído à imprensa. Marisa assinou a produção de ''Infinito Particular'' com Alê Siqueira, um paulista radicado em Salvador (BA) e com quem ela já havia trabalhado em ''Tribalistas''. E convocou nomes de peso para escrever os arranjos de cordas e metais: Philip Glass (famoso na seara da música minimalista), Eumir Deodato (maestro brasileiro radicado desde os anos 70 nos Estados Unidos) e João Donato (figura de proa da Bossa Nova).
A eles deve ser creditada uma parte considerável das virtudes do disco, que se revela rico em timbres, extraídos particularmente de instrumentos como violoncelo (executado por Jaques Morelenbaum), violino, fagote, trompete e flugel horn. Como se fosse uma continuação de ''Tribalistas'', o álbum traz Marisa, Arnaldo e Brown na autoria de 7 faixas. Há parcerias ainda com Adriana Calcanhotto, Nando Reis, Marcelo Yuka, Seu Jorge, Leonardo Reis e Rodrigo Campello.
Desta vez, ela acertou em cheio na escolha da canção de trabalho, não repetindo a gafe de seis anos atrás quando pinçou a cafonérrima ''Amor I Love You'' para promover ''Memórias, Crônicas e Declarações de Amor''. O cartão de apresentação do novo repertório é ''Vilarejo'', de melodia cativante e cuja letra projeta (não sem um certo travo hiponga) um lugar ideal para o convívio entre os seres humanos:
''Há um vilarejo ali / Onde areja um vento bom / Na varanda, quem descansa / Vê o horizonte deitar no chão / Pra acalmar o coração / Lá o mundo tem razão / Terra de heróis, lares de mãe / Paraíso se mudou para lá / Por cima das casas, cal / Frutas em qualquer quintal / Peitos fartos, filhos fortes / Sonho semeando o mundo real / Toda gente cabe lá / Palestina, Shangri-lá'' canta ela, com voz cristalina.
Sobressaem também no CD a abolerada ''Aquela'' (parceria de Marisa com o percussionista Leonardo Reis), ''Levante'' (com o trompete destacando-se em primeiro plano no arranjo), ''Pelo Tempo que Durar'' (com letra de Adriana Calcanhotto) e a faixa-título (''O mundo é portátil / Pra quem não tem nada a esconder / Olha minha cara / É só mistério, não tem segredo / Vem cá, não tenha medo / A água é potável / Daqui você pode beber / Só não se perca ao entrar / No meu infinito particular'').
Há ainda duas faixas de mesmo quilate, ambas com acentuada influência de Gal Costa: ''A Primeira Pedra'' e ''Pernambucolismo'' a faixa mais surpreendente do disco, trazendo um misto de Tropicália com trip hop em instrumental executado apenas por Dadi na percussão e pela própria Marisa no baixo. Ao longo do disco, além do baixo, Marisa toca violão, xilofone, kalimba, vocoder, Lixa de unha, metalofone, baby shaker, auto-harpa e ukulele (espécie de precursor do cavaquinho).
Menos empolgante, a popenta ''Pra Ser Sincero'' soa como uma faixa-bônus de ''Memórias, Crônicas de Declarações de Amor'', tal a afinidade com o material anterior. O disco traz ainda as dispensáveis ''O Rio'' (feita para seu filho) e ''Gerânio'' (de Nando Reis e Jennifer Gomes, remetendo diretamente a ''Diariamente'', faixa do ex-Titãs registrada no álbum ''Mais'' e que brevemente será relançada em versão drum'n'bass pelo DJ Patife).
No depoimento para o DVD de divulgação, Marisa conta que o embrião do álbum nasceu enquanto catalogava seu acervo de composições gravadas. Ao digitalizar o material contido em fitas cassete, ouviu uma centena de registros de áudio recuperando músicas prontas, algumas inacabadas e outras esboçadas. No mesmo período, ela tocou outra frente de pesquisa, voltada exclusivamente para o samba. Um terceiro projeto, focado em interpretações de canções antigas das décadas de 20 e 30, ficou para a próxima.


