Uma coleção de 16 canções marca uma nova etapa na trajetória do Grenade. O álbum, homônimo à banda londrinense, chega às lojas pelo selo Slag Records com distribuição pela Trama. É o primeiro trabalho gravado ''em conjunto'', já que os discos anteriores foram gestados pela inspiração solitária do guitarrista Rodrigo César.
Desta vez, o ex-integrante do Killing Chainsaw compôs com a colaboração de Eric (guitarra), Eduardo (baixo) e Paulo (bateria). O álbum traz uma assinatura especial nos créditos: Steve Fallone, responsável pela masterização de matrizes do Sonic Youth, Luna e do festejado ''Room Of Fire'', último disco dos Strokes. Se antes o band leader definia o som do Grenade como ''folk psicodélico'', agora prefere não arriscar rótulos. ''É um disco de rock'' diz, secamente.
O ouvinte, porém, poderá identificar algumas influências ao longo das faixas. Talvez mais melodiosas que em ''Out of Body Experience'' e ''Shortwave Young Love Kingdom'' (os dois últimos CDs do grupo), as novas canções remetem a bandas como The Apples in Stereo, Guided by Voices e Teenage Fanclub. A boa surpresa é o riff bluesy em ''Tonight''.
Um show de lançamento já foi feito em Maringá. ''Agora estamos tentando agendar uma apresentação em Londrina, mas está difícil encontrar um local'' explica o guitarrista, adiantando que a banda tocará no dia 4 de maio em São Paulo abrindo para o Teenage Fanclub e quatro dias depois no Curitiba Pop Festival na mesma noite que os Pixies. A seguir, leia entrevista com o músico.
Esse é o primeiro disco do Grenade em que você não está sozinho, mas acompanhado por outros três músicos. Essa mudança se refletiu na gestação das canções? Eles participaram do processo de criação das composições?
Eu já estava com a banda desde 2000, ao mesmo tempo em que compunha sozinho. Durante os ensaios, eu trazia a idéia, a base, os riffs, e os arranjos se desenvolviam em conjunto. Todo mundo teve total autonomia e dinâmica própria para sugerir e colocar elementos nas músicas.
Você já definiu o som do Grenade como ''folk psicodélico''. O material do novo disco também se encaixa nessa caracterização?
É um disco de rock, de banda. Tem folk, tem psicodelia, mas eu defino apenas como um disco de rock com guitarra, baixo e bateria.
Como surgiu o contato para o disco ser masterizado nos Estados Unidos pelo engenheiro de som Steve Fallone?
O contato foi do Eduardo Ramos, dono do selo paulistano Slag Records. E tivemos muita sorte, porque o Fallone sempre trabalhou para bandas de selos pequenos. Já tinha feito discos para o Luna, o Sonic Youth, mas seu primeiro grande trabalho foi o ''Room On Fire'', dos Strokes. Ele pegou o disco dos Strokes logo depois de masterizar o nosso.
A maioria das pessoas tem pouco conhecimento sobre o processo de gravação de um disco. Qual a importância da etapa de masterização para o resultado final de todo o trabalho?
A gente que grava num processo quase artesanal, não consegue identificar se o som ficará bom o suficiente para poder tocar em todas as frequências, em todos os aparelhos. A masterização é a etapa que padroniza o som, que dá um critério. Ela não muda o som, apenas põe mais peso, mais musculatura. É a etapa mais importante na finalização de um disco, equivalente ao processo de edição para um filme.
Você faz parte da primeira geração do indie rock brasileiro, surgida no início dos anos 90. Quais as principais mudanças que ocorreram na ''cena'', da fase em que você tocava no Killing Chainsaw para hoje?
Vejo duas mudanças com clareza. A primeira é que mudou a postura das bandas. Antes, todas pensavam em tocar, gravar e atingir uma grande gravadora. Tudo era um trampolim para uma coisa maior. Havia o sonho de viver só de música. Foi assim com o Killing Chainsaw. Quebramos a cara quando assinamos com a Roadrunner (hoje Sum Records), decisão essa que acabou com a banda. Mas esse comportamento mudou. Hoje em dia, as pessoas estão interessadas em formatar uma cena que se auto-sustente, independente da grande indústria musical. Outra mudança ocorrida nos últimos anos foi no plano da comunicação. Antes, a banda gravava uma demo e mandava pelo Correio. Hoje tem Internet, comunidades virtuais, todo mundo está em contato. Apesar da pulverização, há uma cena global com todo mundo se comunicando.
O Grenade conquistou um grande prestígio na imprensa especializada e entre o público que consome rock independente em geral. Para muita gente, é a principal banda do segmento alternativo nacional, cujos discos são distribuídos inclusive nos Estados Unidos. Por que a banda não estoura?
Somos limitados pelo mercado. Por mais que gravemos discos bons, enfrentamos dificuldades pelo fato de cantarmos em inglês e pelo tipo de som que fazemos. Agora essa coisa de 'estourar' é relativo. O que é estourar? Vender mais discos? Fazer shows maiores? Atingir um mercado maior? Quando eu tocava no Killing, tinha essa pretensão. Mas já superei essa fase. Hoje quero continuar fazendo músicas, independentemente se elas um dia irão me viabilizar profissionalmente. O tempo é irrelevante. Não tenho a ambição de largar tudo, família e trabalho, para apostar numa carreira no exterior como fez o Wry (banda de Socorabara radicada em Londres), por exemplo. Isso é uma decisão minha e da banda. Para nós, é legal saber que somos relevantes no Brasil.
Que expectativas você tem em relação ao fato do novo disco estar sendo distribuído pela Trama?
É a retaguarda que faltava para os selos independentes. A Trama prensa e distribui para os canais. Pelo que soube, o disco está vendendo bem e pode ser encontrado em qualquer lugar. Antes, no processo anterior, teria que vender por aqui e através da Internet. A distribuição está funcionando.
O disco foi gravado no final de 2002. Você já tem novas músicas prontas?
Muitas. E esse é o nosso novo desafio: conseguir lançar mais rápido nossas músicas. Se para o público esse disco é novo, para a banda já é material velho. A base instrumental dele foi gravada em 2002, com a gente tocando ao vivo no estúdio para manter o peso de um show. No começo do ano passado, coloquei as vozes e mixei as faixas. Em seguida, enviamos a master para os Estados Unidos. Foi um processo demorado. Para a banda, as músicas já estão desgastadas. Eu gosto de procurar novos caminhos. O próximo trabalho vai ser bem diferente. Pretendemos lançá-lo até o meio do ano, e mais outro até o final do ano. E há ainda a compilação ''Splinters (2000#2002)'', que também será lançada este ano pela Slag e com masterização do Fallone.

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