DISCO/LANÇAMENTO - Menos potência, mais sutilezas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de dezembro de 2006
Folhapress 
A discografia do Who se alicerçou em como quatro elétricos músicos equacionavam o talento e a ambição das canções de Pete Townshend. Não bastava ser rock, tinha que haver conteúdo e formas originais. E tinha que ser adolescente.
Townshend sempre buscou nas canções um porto seguro. ''Endless Wire'' prossegue essa busca. Abre com ''Fragments'', que pergunta: ''Somos as partes?/Somos o todo? (...) Essas partes de mim/ pertencem a você''. Ingênuo? Sincero. E essa candura se reflete nas cordas de bandolins, banjos e violões (calma: há guitarras também) e nas interpretações de sua própria voz, muito suave, como em ''God Speaks of Marty Robins'', uma canção de ninar ao contrário. ''Endless Wire'' é sobre conexão, mas nem sempre com garantia de satisfação.
Mesmo que cante às vezes, Townshend permite que Roger Daltrey tenha a primazia ao microfone. Se falta a força do começo, agora Daltrey é um intérprete, sem dúvida, e o melhor da obra do guitarrista. Menos potência, mais sutilezas, eis a vantagem de envelhecer.
Se, em termos de conceito, nem sempre é fácil delinear a ambição de Townshend, existem, sim, grande canções. ''Fragments'', parecida com ''Baba O'Riley'', de ''Who's Next'', ''It's Not Enough'', a breve ''We Got a Hit'' (que remete ao Who dos anos 60).
Talvez o maior problema para o fã primal seja a introspecção do disco. São frequentes as baladas, algumas com bateria eletrônica (hoje bem tolerada nos meios roqueiros, mas ainda um sacrilégio para quem dividiu o palco com Keith Moon). Essa falta de força pode frustrar, mas não arrasta o CD; ao contrário, ele até soa curto nos seus pouco mais de 50 minutos.
''Endless Wire'', se não é brilhante, é suficiente para não enterrar Townshend e Daltrey prematuramente. Enquanto Daltrey tiver voz, e Townshend, adolescência, a busca ainda merecerá ouvidos.
Serviço:
- Endless Wire, The Who. Gravadora: Universal. R$ 36, em média


