Há bandas que prometem muito no primeiro CD, viram a bóia milagrosa do rock num instante, mas basta a esquisitice de uma outra qualquer para cair na reserva de algum ditador de modismos. No meio do bombardeio de CDs que desabam sobre as cabeças toda semana, é difícil fixar a atenção numa só tendência. Vai daí que o segundo álbum do Franz Ferdinand, ''You Could Have it so Much Better'' (Trama) balança no pêndulo da dúvida. O título (você poderia tê-lo muito melhor) dá margem a provocação, embora o conteúdo mereça a celebração que teve o primeiro.
Se de um lado o CD confirma o hype levantado em torno do álbum de estréia, de outro insinua que o grupo preferiu acelerar pelo mesmo bom caminho trilhado. E faz com que este também tenha apelo para o bom êxito, porque, com canções mais redondas dentro da fórmula testada, é daqueles discos que se ouvem com prazer do começo ao fim. A edição nacional vem completa, com um DVD-bônus, reunindo entrevista, clipe de ''Do You Want To?'' e making of.
Desde a faixa de abertura, ''The Fallen'', a influência do Clash parece mais acentuada em boa parte do CD, bem como a do Blondie, mas isso soa menos imitação do que incentivo à instauração da identidade do Franz. E ela transparece em fragmentos que também vêm de Beatles e Nirvana, o que não quer dizer que investidas como ''Do You Want To?'', o festivo primeiro single do álbum, não seja puro Franz Ferdinand. Na linha procedente de ''Take me Out'' (hit absoluto do CD anterior), com variações de ritmo e andamento, a canção conta com um adicional condimento homoerótico e é daqueles dance-rocks que grudam no ouvido.
Embora nascidos na fria Escócia, Alexander Kapranos (vocal e guitarra), Nicholas McCarthy (guitarra e vocais), Robert Hardy (baixo) e Paul Thomson (bateria) têm um senso de humor que parece combinar mais com o sol da Califórnia. É vigor juvenil estilhaçado por rocks furiosos, riffs cativantes e letras esquisitas, para dizer o mínimo. Como a da punk This Boy, que diz coisas como: ''Eu terei uma fatia de sua mãe''.
Eles despendem ainda mais sua alta energia em ''Evil and a Heathen'' e na sacudida ''You're the Reason I'm Leaving'', que lembra os bons momentos do Madness. Há quem considere um desperdício de potencial o fato de os quatro ''ferdinandos'' soarem ao mesmo tempo tolos e criativos. Bem, quem manda ter material mais sólido para servir de comparação?
Uma das melhores faixas do CD é a melódica Walk Away, que remete a ''Come as You Are'', do Nirvana. O single, que sai em dezembro no Reino Unido, vai trazer também uma cover de ''Sexy Boy'', do Air. Outra beleza, a balada acústica meio psicodélica Eleanor Put Your Boots on, não tem esse nome por acaso. É quase uma paródia dos Beatles - não de Eleanor Rigby, especificamente, mas combina vários bons elementos de clássicos de Lennon & McCartney. ''Fade Together'' vem mais adiante, com a mesma atmosfera. São canções reveladoras da capacidade do FF de criar boas melodias e arranjos. Até que isso amadureça, vai-se divertindo.

mockup