Disco/lançamento - Enfim, ele acertou!!
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Paulo Ricardo se redime dos pecados cometidos em nome do sucesso ao apresentar Amor de Verdade - seu novo (e belo) disco composto por sucessos gravados por Roberto Carlos
A simples menção de seu nome faz muita gente torcer o nariz. E com certa razão já que Paulo Ricardo, na incessante peleja de sedimentar a carreira solo, atirou para todos os lados. E nesses anos de rajadas ao léu eis que de repente o moço traz à tona um trabalho que não é merecedor de elogios hiperbólicos, mas reúne alguns bons predicados.
Chama-se Amor de Verdade (Universal) e é formado por, digamos assim, canções de saudosa memória gravadas por Roberto Carlos entre o final dos anos 60 e meados da década de 70, na chamada fase soul do dito cujo. Uma fase em que Robertão se entregava com nobreza às populares canções românticas ricamente estofadas - laivos de líder de um movimento que injetou um necessário solavanco pop à MPB.
Foi um período de transição, em resumo, quando Roberto estava dando adeus à sua porção roqueira e dando boas vindas ao romantismo. Coincidentemente a mesma coisa por que passa Paulo Ricardo. Pois muito bem, curiosamente, Amor de Verdade traz apenas uma canção de Roberto e Erasmo - Por Amor. O restante do repertório é formado por músicas coroadas na voz do tal rei vindas de compositores populares como Maurício Duboc, Carlos Colla, Renato Barros, Getúlio Barros e até um certo Caetano Veloso (Muito Romântico).
O grande pecado do disco fica por conta da inclusão de três músicas assinadas por Paulo Ricardo - Como se Fosse a Primeira Vez e Mais e Mais (feitas com Michael Sullivan,) e Amor de Verdade (em parceria com Marinho Marcos, que faz sutis referências a alguns sucessos de Roberto). Por mais que estejam tecnicamente alinhadas às demais canções, em termos de arranjos e motes (o amor no caso), tais musiquinhas não precisavam estar no disco.
Esses três escorregões não tiram, entretanto, o brilho de Amor de Verdade. Sim, Paulo Ricardo conseguiu fazer um disco aprazível mesmo que seja indisfarçável o apelo comercial que o nome de Roberto Carlos produz. Ah, claro, indo mais a fundo pode-se vislumbrar as segundas intenções marqueteiras de apresentar ao público o sucessor natural do ainda rei da música popular.
Voltemos ao disco. Trata-se de um produto com o qual Paulo Ricardo cutuca as reminescências musicais dos hoje fãs trintões e quarentões e, de quebra, remete a nova geração a uma época em que Roberto, por mais popular que tenha sido na escolha do repertório, não dava sinais de frouxidão criativas.
Sempre existiu a idéia de gravar essas canções desde quando passei a cantar um repertório pop-romântico. Porém, só agora achei oportuno e urgente fazer isso- disse Paulo Ricardo em entrevista à Folha2, por telefone. E o cantor, pelo jeito, tornou-se um discípulo aplicadíssimo de Roberto Carlos ao ponto de ter na ponta da língua argumentos até convincentes para tentar justificar as fragilidades das atuais composições do seu ídolo.
Roberto é uma instituição, uma verdadeira aula de como um artista deve conduzir sua vida artística e pessoal. O que acho mais fantástico é que com quase 40 anos de carreira ele está como pole position- diz ele. É preciso analisar o Roberto pelo conjunto de sua obra complementa. Então tá!!
Porém, o grande mérito do disco deve ser creditado a Guto Graça Mello, um dos mais competentes, sábios e sensíveis produtores fonográficos do Brasil. Tinha um sonho de trabalhar com ele (Guto) mas achava que não iria topar porque é um sujeito ocupado- informa o cantor. E ele topou. Para a felicidade e salvação de Paulo Ricardo. Fosse outro produtor de plantão, Amor de Verdade poderia ter tido um rumo equivocado.
Sim, porque para alguns produtores pinçados de pistas de dança ou mesmo paud mandados de gravadoras fazer releituras de músicas do passado é simplesmente adorná-las com beats eletrônicos. E ao que parece, repaginar Roberto Carlos com elegância deve ser mesmo a especialidade de Guto - foi ele quem produziu o disco As Canções Que Você Fez Pra Mim (só com canções de Roberto e Eramos) e que fez, em 95, Maria Bethânia renascer das cinzas.
Em Amor de Verdade tudo tem sua marca registrada - das precisas e características cordas (gravadas em Londres, como é de seu feitio) até a eliminação de maneirismos vocais pedantes que até então Paulo Ricardo tinha. O resultado, por consequência, só poderia ser um disco no mínimo interessante. Pode não ser um trabalho antológico ou coisa assim, mas é digno.
Com esse disco, Paulo Ricardo se redime de algumas trapalhadas fonográficas que cometeu desde que decidiu se lançar na carreira solo. É muito fácil gostar de Amar de Verdade. Há resgates preciosos como Eu Só Tenho Um Caminho (Getúlio Cortes), quase um gospel com direito a coralzinho e tudo o mais; A Namorada (Maurício Duboc e Carlos Colla) ou mesmo Uma Palavra Amiga (Getúlio Cortes), ou mesmo a versão dance (mas não desvairada de Você Não Serve Pra Mim.
Agora, Ninguém Vai Tirar Você de Mim é, sem sombra de dúvidas, a faixa mais bonita do CD. Enfim, Amor de Verdade é um disco cheio de emoções sinceras. Vai agradar incuráveis saudosistas na mesma sintonia em que, na outra ponta, embalará suburbanos e moderninhos corações. Roberto deve estar muito orgulhoso de Paulo Ricardo!!





