Se existe alguma relação entre Rio Grande do Norte e Japão, a cantora e compositora Valéria Oliveira é um elo pulsante. Pra começar, Valéria dedilhou seu violão e soltou a voz pela primeira vez em Natal, cidade onde nasceu. E na terra do sol nascente, além de conhecer uma nova cultura, conquistou notável espaço no cenário musical.
''Imbalança'', é o terceiro CD de carreira dessa potiguar, mas o primeiro a ser lançado no Brasil, pela Deckdisc. Produzido pelo músico japonês Kazuo Yoshida que já dirigiu grandes nomes da MPB como Wanda Sá, Joyce, Miucha e João Donato o disco é a interessante mistura do cool bossa-jazz com a música-raiz nordestina.
Dotada de considerável dose de elegância, Valéria empresta sua voz a um repertório que caminha por Lenine (''Jack Soul Brasileiro''), passeia por Luiz Gonzaga e Zé Dantas (''Imbalança''), faz uma pausa em Chico Buarque (''Estação Derradeira'') e finaliza em seu próprio porto, com ''Fogo do Inferno'', uma das duas faixas assinadas por ela.
A essência instrumental do disco foi escolhida a dedo com as participações de renomados músicos, entre eles Carlos Malta (flauta), Marcos Suzano (percussão) e Mário Adnet (violão e arranjos). Talvez o ponto alto do trabalho esteja na participação especial de Edu Lobo cantando em ''Chegança'', composta por ele em parceira com Oduvaldo Vianna Filho. Mas a artista não se atém a ilustres participações e entra no clima das ritmadas ''Na Galha do Cajueiro'' (Tião Motorista) e ''Hoje é dia de Festa'' (Jorge Ben), sugerindo um bom jogo de cintura.
Buscando uma linha condutora entre o contemporâneo e o clássico brasileiros, Valéria Oliveira dá os primeiros passos no mercado fonográfico nacional com boas intenções, munida de discreta ousadia. A seguir, os principais trechos da entrevista que a cantora e compositora concedeu à Folha2.

Houve muita dificuldade para conquistar o público japonês?
Tive bastante dificuldade apenas com relação à língua. Há uma certa adaptação que a gente tem que ter, porque é uma cultura diferente. Seria mais adaptação de saber como deve ser feita alguma coisa, quando deve silenciar, o que é muito mais pessoal. Com relação ao meu trabalho, foi super legal. Eu toco violão e eu acho que isso foi uma coisa bacana pra eles: verem uma mulher tocando e, além disso, eu tenho características da música nordestina, talvez um fator que acaba se diferenciando de outras artistas que vão cantando Bossa Nova e samba, por exemplo. Meus shows são sempre muito bem recebidos, com participação deles, com um calor humano bem legal.

Conte um pouco sobre o início de sua carreira musical
Antes de lançar meus trabalhos no Japão eu já trabalhava com música aqui na minha cidade. Fiz dois CDs independentes, mas não foram lançados nacionalmente por falta de contatos. No processo entre um CD e outro surgiu a oportunidade de ir ao Japão. E foi a partir daí que realmente a coisa começou a crescer. Meus contatos com o produtor Kazuo Yoshida e outros músicos que moram lá aumentaram e o CD saiu pela gravadora Videorts Music. Esse trabalho já vem acontecendo de 2001 pra cá, e desde então a gente vinha batalhando para que esse disco chegasse ao Brasil e fosse distribuído para imprensa e o mercado brasileiros. Isso pra mim está sendo um gancho maravilhoso. Me inspira muito saber que agora tenho um canal com uma distribuidora nacional.

E quanto ao seu lado compositora?
No 'Imbalança' são duas composições próprias. Eu me lancei como compositora nesse disco. Anteriormente eu interpretava compositores, inclusive do Rio Grande do Norte, dando prioridade a isso nos trabalhos independentes. No Japão fazíamos releituras de clássicos, mas minha grande fissura é poder explorar meu lado autoral. Yoshida foi uma pessoa bem importante nesse processo porque ele me abriu possibilidade de mostrar alguma coisa minha, não só no ''Imbalança'', mas em outros CDs de músicos japoneses, nos quais participo junto de Ivan Lins, Rosa Passos, Djavan e outros grandes nomes. Também foi um trabalho que me deixou muito feliz.

Já está em temporada no Brasil?
De certa forma é tudo muito novo pra mim. Foi feita uma distribuição dos CDs, então a produção de shows e turnês vão depender muito dos contatos que vamos fazer com esse novo momento. Mas eu acho que já é muito legal saber que esse disco tá rolando no país inteiro. Desejo profundamente poder sair Brasil afora lançando o meu trabalho. Mas vai depender desses contatos.

Serviço
- Disco ''Imbalança'' de Valéria Oliveira, lançamento da Deckdisc. Preço médio: R$ 28,00. Outras informações pelo site www.deckdisc.com.br

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