Visitar os arquivos empoeirados das gravadoras, virou regra nos últimos três anos no Brasil. A crise da indústria fonográfica obrigou as grandes companhias a investir em títulos antigos de seus catálogos em vez de apostar em novos talentos. Com a iniciativa, muitos discos raros saltaram do baú, garimpados por pesquisadores como Charles Gavin e Marcelo Fróes.
Nesta operação-resgate, nem tudo merecia retornar às prateleiras. Mas muitas jóias, lançadas originalmente em vinil, foram acolhidas com entusiasmo pelos colecionadores. A EMI abasteceu as lojas através das séries ''Tesouros da Música'', ''2 em 1'' e ''Odeon 100 Anos''. É esta última, criada para festejar o centenário da instalação da gravadora no País, que finaliza as comemorações com o lançamento de uma caixinha com 3 CDs de caráter documental.
O pacote, batizado ''História da Odeon'', reúne 60 gravações representativas não apenas dessa fábrica de discos, mas do percurso da música popular brasileira na primeira metade do século XX. Obviamente, a qualidade sonora deixa a desejar já que a captação da época era feita ainda por máquinas movidas a energia mecânica.
O CD 1 abrange composições registradas entre 1902 e 1929 pelas vozes de cantores como Mário Pinheiro, Cadete, Augusto Calheiros e Eduardo das Neves. Inclui o lundu ''Isto é Bom'', interpretado por Bahiano (1870-1944) em ''Zon-O-Phone'', o primeiro disco gravado no Brasil. Traz também faixas instrumentais executadas por Patápio Silva (1881-1907), Casemiro Rocha (18880-1912), Banda do Corpo de Bombeiros, Grupo O Passos no Choro e Banda da Casa Edison.
A atriz do teatro de revista Araci Côrtes (1904-1985) comparece cantando o samba-canção ''Linda Flor (Ai, iô iô)''. É a única voz feminina na compilação ao lado de uma certa Senhorita Consuelo, que faz duo com o já citado Bahiano em ''E Durma-se com um Barulho Deste''. O mestre dos mestres Pixinguinha (1897-1973) desponta como o artista mais célebre do CD com a gravação original de sua imortal valsa ''Rosa'', executada em 1917 por seu grupo Choro Pixinguinha.
O CD 2 avança na retrospectiva abrangendo de 1927 a 1942. A data inaugural marca a introdução no Brasil da gravação baseada na energia eletromagnética, o que veio a melhorar a qualidade de captação, inclusive com a advento dos primeiros microfones. A coletânea traz o rei da voz Francisco Alves (1898-1952) trovejando em ''Ora, Vejam Só'', ''Dá Nela'', ''Aquarela do Brasil'' e ''Feitio de Oração (esta em dueto com Castro Barbosa).
O Poeta da Vila Noel Rosa (1910-1937) se faz presente com o samba ''Com que Roupa?'' e também como autor da letra de ''Até Amanhã'', interpretada no disco por João Petra de Barros (1914-1947). Outro destaque, o longevo Silvio Caldas (1908-1998) solta a voz no clássico ''Chão de Estrelas'' cuja letra cintila os versos memoráveis ''Tu pisavas nos astros distraída / Sem saber que a ventura desta vida / É a cabrocha, o luar e o violão''.
Mário Reis (1907-1981), precursor no jeito intimista de cantar que se tornou padrão na bossa nova, emplacou sucessivos sucessos na virada dos anos 20 para os 30. Um deles foi o samba ''Dorinha, meu Amor'', lembrado aqui em sua gravação original de 1928. O baiano Dorival Caymmi é outra sumidade escalada para a compilação, que pinçou a famosa ''O Que é Que a Baiana Tem?'', na qual ele protagoniza um dueto com Carmen Miranda (1909-1955).
Esta, por sua vez, é revivida ainda nas clássicas ''Na Baixa do Sapateiro'' (de Ary Barroso) e ''Sonho de Papel'' (Alberto Ribeiro). A irmão de Carmen, Aurora, também é resgatada com o registro da marcha carnavalesca ''Cidade Maravilhosa''. Também conhecida por foliões de qualquer geração, ''Mamão Eu Quero'' aparece documentada na voz de Jararaca (1896-1977).
Fechando o segundo CD, o cantor Ataulfo Alves (1909-1969) é representado na coletânea com o samba ''Ai, que saudades da Amélia'', com o qual estreou em disco na Odeon. O CD 3, por fim, abrange composições feitas entre 1941 e 1952. Artistas contemplados no segundo CD dão o ar da graça com outras faixas clássicas, caso de Pixinguinha (''Os Cinco Companheiros''), Dorival Caymmi (''Dora'' e ''Nem Eu'') e Francisco Alves (''Nervos de Aço'' e ''Confeti'').
Desta vez, eles têm a companhia de Orlando Silva (1915-1978), que é lembrado com as gravações de ''Braza'' e ''Atire a Primeira Pedra''. O cantor das multidões, aliás, era considerado o melhor intérprete masculino da MPB entre o final da década de 30 e começo dos anos 40. Outro monstro sagrado destacado neste volume é a diva Dalva de Oliveira (1917-1972), que é lembrada através das faixas ''Segredo'', ''Errei, sim'', ''Ave Maria'' e ''Meu Rouxinol''.
No texto do encarte, o jornalista Rodrigo Faour lembra o duelo musical ocorrido na época. ''Dalva que vivia às turras com o marido, acabou se separando dele em 49. O que motivou a partir de então uma polêmica de músicas que Dalva cantava para Herivelto (Martins) e outras que Herivelto dava para outros intérpretes cantarem em resposta a Dalva''.
O CD registra a treta. O samba ''Cabelos Brancos'', interpretado pelo grupo 4 Ases e 1 Coringa, traz o verso: ''Não falem desta mulher perto de mim''. Em resposta, a cantora declara em ''Errei, sim'': ''Manchei o teu nome / Mas foste tu mesmo o culpado''.

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