Zeca Baleiro já desejava há muito tempo gravar sua versão para o poema ''Mulher Amada'', de Murilo Mendes. Mas nunca via a música encaixando-se nas idéias dos discos. No quinto CD solo, o agora lançado ''Baladas do Asfalto e Outros Blues'', a faixa entrou à força. ''Também não encaixava, mas resolvi pôr para criar um estranhamento mesmo'', explica Baleiro, 39, rindo de sua opção.
O caso serve para falar do novo trabalho do cantor e compositor maranhense e, também, do trabalho dele em geral. ''Mulher Amada'' é o ponto de inflexão do CD, onde ele deixa de ser basicamente pop, folk ou ''radiofônico'' - adjetivo dele, talvez melhor do que os outros - e se torna mais amargo. Aliás, chama-se ''Amargo'' uma das seis faixas finais. ''Há (no CD) momentos solares e outros mais melancólicos. A tristeza é sempre bem-vinda. Mas esse disco não foi realizado sob efeito de nenhuma situação pessoal específica'', diz Baleiro.
O CD começou a ser gerado no segundo semestre de 2004, quando sua dupla de produtores Walter Costa e Dunga lhe pediu três canções para fazer experiências de arranjo. Ao ouvi-las, Baleiro descobriu o tal clima radiofônico que resolveu imprimir em boa parte do disco. ''É pelo menos o rádio que eu tenho na minha cabeça. Talvez fosse o rádio que a gente quisesse que existisse'', justifica ele, indicando uma receita pop que não seja sinônimo de demência.
Mas aquela história inicial também serve para dizer que, segundo Baleiro, não é um conceito prévio o que embasa seus discos. Ele diz ver mais ''filosofia em Nelson Cavaquinho do que em Michel Foucault''.
''O conceito vem depois. Desde que surgiu esse negócio de conceito, piorou muito a música. Muitas vezes o discurso do conceito é uma máscara para disfarçar a inconsistência do trabalho. Eu prefiro ir para o estúdio na base do ''vamos ver no que vai dar'', diz ele.
No caso de ''Baladas do Asfalto e Outros Blues'', deu em um disco que ganha mais força quando perde em voltagem. Nas sete primeiras faixas, o compositor mescla rock, reggae, Jorge Ben Jor e outras referências suas para embasar jogos de palavras irregulares. ''Balada do Asfalto'' (''Mesmo o mais sozinho nunca fica só/ Sempre haverá um idiota ao redor'') é a melhor do bloco.
''Eu acho que a metáfora do asfalto sintetiza muita coisa, de bom e de ruim. Significa o estrangulamento do homem moderno e os novos caminhos que as estradas abrem'', explica ele, que prefere São Paulo ao Rio de Janeiro.
''São Luís já era uma cidade praieira. Saí de lá porque queria o concreto, a agitação. Não sou contemplativo. Aqui no Rio não conseguiria trabalhar tanto'', diz ele, tendo ao fundo o Pão de Açúcar e a enseada de Botafogo.
No segundo bloco do CD, além da belíssima versão para o poema de Murilo Mendes, ele homenageia Roberto Carlos em um par de boas canções, ''radiofônicas'', mas bastante poéticas. Em ''Cigarro'', ele cita a clássica ''Por Isso Corro Demais'', e em ''Muzak'' fala da inevitável diluição da arte pela indústria cultural. ''Roberto e Erasmo são nossos (John) Lennon e (Paul) McCartney. Criaram um vocabulário que influencia a todos. De José Miguel Wisnik a Wando, de Caetano Veloso a Odair José. Mesmo com essas musiquinhas que faz hoje, Roberto continua grande'', exalta.
Significativamente, depois de dialogar tanto com o mundo pop, Baleiro encerra o CD com uma ótima música chamada ''O Silêncio'', em que canta: ''Agora só me falta aprender/ O silêncio''.
Ainda em agosto, Baleiro promete lançar mais CDs, mas não seus. Devem sair no fim do mês o disco que fez a partir de poemas de Hilda Hilst, com participação de dez cantoras, e o de inéditas de Sérgio Sampaio (de ''Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua''), que produziu a pedido da família do compositor.

Serviço:
CD ''Baladas do Asfalto e Outros Blues'', de Zeca Baleiro. Gravadora: MZA
R$ 30, em média

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